Mostrar mensagens com a etiqueta Açores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Açores. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de março de 2017

A palavra e o mundo - Mulher de Porto Pim (II)


 Sempre tão atarefados, e com membros compridos que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel em que parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, mas não nadam, como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e uma ferocidade graciosa. 
Permanecem logo tempo em silêncio, mas depois gritam uns com os outros com fúria repentina, numa algazarra de sons que quase não variam e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, facilitado pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os esplêndidos e ternos esforços para a consumar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe por que razão por que razão a frequentam. Também se deslocam em bandos, mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas se encontram algures, mas sempre invisíveis.
Às vezes cantam, mas só para si, e esse canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento pungente. Cansam-se depressa, e quando a noite cai estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Passam deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

Antonio Tabucchi. (2016). Mulher de Porto Pim e outras histórias. Lisboa: D. Quixote. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

A palavra e o mundo - Mulher de Porto Pim (I)

"(...) as baleias, que mais do que animais parecem metáforas, e também os naufrágios, que na sua acepção de actos falhados e milagrosos parecem igualmente metafóricos" (1).
 
Mulher de Porto Pim e outras histórias é um livro reeditado em 2016 com a chancela da D. Quixote e com uma capa desenhada por Rui Garrido que nos traz um livro maravilhoso sobre "as ilhas ocidentais". Livro de 1982,  classificado pela World Literatura Today, como "uma ode aos Açores", é um objecto de grande valor cultural, que tenta trazer a paisagem, as pessoas, o mistério, o sonho, as histórias das "ilhas ocidentais", de uma forma concisa, breve e fascinante.  Mulher de Porto Pim e outras histórias é uma narrativa poética, quase um livro de viagens sobre um arquipélago atlântico, um relato e uma pesquisa de informação sobre as ilhas, as baleias, os naufrágios.

Dividido essencialmente em duas partes: I: Naufrágios, destroços, passagens, lonjuras e II. De baleias e baleeiros tem ainda um prólogo de abertura e um Apêndice, com uma nota final, um mapa e alguns livros sobre esta temática atlântica. Mulher de Porto Pim e outras histórias tem o grande mérito que caracteriza Antonio Tabucchi de misturar o real e o sonho tentando encontrar o que se revela por detrás das imagens, das palavras, dos gestos, dando aqui em pouco mais de cem páginas um quadro do sentido diferente e maravilhoso que são os Açores.
Mulher de Porto Pim e outras histórias integra horizontes de ficção com suporte de real como é o caso do texto (lindo) sobre Antero de Quental, ou misturando histórias ouvidas com o que a sua imaginação e as suas leituras permitiram construir. 
Um texto final de rara beleza, "uma baleia vê os homens" dá-nos essa ideia criada por Carlos Drummond de Andrade, a visão que os animais têm de nós. Observação que é uma metáfora sobre a forma como vivemos e usamos o espaço que habitamos. Mulher de Porto Pim e outras histórias é um livro fascinante de um grande escritor sobre um território habitado por "deuses do espírito, do sentimento e da paixão" (2).

(1;2) - Antonio Tabucchi. (2016). Mulher de Porto Pim e outras histórias. Lisboa: D. Quixote. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

A palavra e o mundo - Açores, o segredo das ilhas (II)

Raul Brandão escreveu um livro inesquecível sobre as Ilhas, a da Madeira e essencialmente sobre o arquipélago dos Açores. A descrição do azul, as pessoas e um território fez de As ilhas desconhecidas uma referência na Literatura de viagens e nas narrativas sobre as Ilhas Atlânticas. 

João de Melo oferece-nos um livro próximo, mas muito diferente sobre a magia única das nove ilhas que compõem essa unidade habitado pelo espírito. Açores, o segredo das Ilhas é uma narrativa de viagem a nove ilhas, a descoberta de uma paisagem natural acima das palavras, desse nascimento telúrico e das actividades humanas. Mas é sobretudo um livro à procura do fundamento da terra no seio das suas formas. Da sua atmosfera de vento e nuvens, fogo e água, a terra nascida no momento inicial dos tempos.

Açores, o segredo das Ilhas é ainda uma visita onírica a nove ilhas e a descoberta nelas do fundamento inicial do mundo, a janela aberta do Cosmos. Cada Ilha do "mais belo mar do mundo" é descrita pela sua substância vulcânica e pelo modo como se definiu nesse azul imenso. "Corvo, a cornucópia do mar", Flores, Ilha de todas as ilhas", "Faial, onde estão as faias", "Pico, a montanha mágica", "São Jorge, o sáurio que dorme", "Graciosa, sentada a ver o mar", "Terceira, o mundo todo em volta", "São Miguel, uma doce melancolia" e "Santa Maria, o ninho do gurajau", são visitas a um arquipélago feito de substância de deuses do espírito, como o definiu António Tabucchi. 

Existem livros que são uma experiência sensorial, que nos fazem experimentar a nossa condição de vida, a nossa mortalidade, a descoberta dos nossos continentes interiores e a nostalgia de rios a correr, a descoberta do visível, a pura felicidade de ver o mundo acabado de nascer. Açores, o segredo das Ilhas é um livro de 2000 reeditado num formato mais acessível e de uma beleza indescritível.

Só alguém que conhece as Ilhas por nascimento ou por um amor imenso desses pedaços de sonhos no meio do mar, plenas "baleias azuis" as pode compreender e descrever como o faz João de Melo. Se As ilhas desconhecidas é um livro quase definitivo pela linguagem, a sua capacidade de compreender o  espaço e descrever as cores, Açores, o segredo das Ilhas é um presente de palavras, para essa missão impossível de dar conhecer os limites azuis de um sonho e de uma beleza rara. Um dos mais belos livros de viagens que se podem ler. Açores, o segredo das Ilhas é um livro que está disponível na Biblioteca para requisição domiciliária.

terça-feira, 7 de março de 2017

A palavra e o mundo - Açores, o segredo das ilhas (I)

 De que falamos nós, quando falamos das ilhas?
Creio que de formas. Das belas estranhas formas que  elas nos sugerem ao olhar. Se as vemos no mapa, não são mais do que corpos fixos, plasmados à superfície das águas, sem nenhum fogo na alma. Apenas corpos terrestres em contínua permanência nas voltas, volutas e luxúrias do mar. 

Porém, se olharmos de uma ilha para a outra, a perspectiva torna-se outra.  Diferente  da anterior. Diferem os sentimentos da lama; muda-se também a forma de ver as ilhas. O que dantes nelas era difuso e longínquo, agora como que se ilumina sobre a linha inesperadamente nítida da costa marítima. As cores, as coisas  e as luzes da paisagem emergem ao lado das sombras. 

E quando sobre as ilhas se descerra a imensa e húmida cortina que o mar segrega sob a forma de névoa e bruma, para as esconder de quem ali veio para olhar, outros relevos saem do encoberto para se acenderem no dia.  Então sim, passam a ser uma visão revelada, aparição que se configura de outro modo nos nossos sentidos. As ilhas ganham um rosto, e esse rosto uma expressão. Os olhos enchem-se de um brilho maravilhado. Tornam-se coloridas e amplas de luz as paisagens. E todos nós passamos do segredo misterioso ao conhecimento amado das ilhas.