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terça-feira, 16 de junho de 2020

Biblio@rs (XVIII-XV)

 
A Civilização Grega - o belo como representação (IV)
Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia
A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boaiava o rasto branco dos navios. (1)
"Quem é belo é querido, quem não é belo não é querido". (2)
Expressão de Hesíodo nas bodas de Cadmo e Harmonia em Tebas e subscritas por Eurípedes. 
A civilização grega até Péricles não tinha construído ainda uma estética que formulasse uma ideia sistematizada de Beleza. Existem diferentes ideias sobre a Beleza.
 O oráculo de Delfos à mesma pergunta respondia: "O justo é o mais belo". A Beleza está pois associada a outros valores. Não ficou paralisado Menelau na derrota de Tróia pelo belo seio de Helena? 
A Beleza desenvolver-se-á na Grécia Clássica como os elementos perceptíveis dos sentidos, mas também a revelação de qualidades de carácter. A Beleza entre os Gregos desenvolveu-se de modo diferente consoante falamos dos hinos escritos, das lendas reveladas, da poesia ou da escultura.
(1) - "A Estátua" in No tempo dividido / Sophia de Mello Breyner Andresen. Lisboa: Caminho. 
(2) - Expressão de Hesíodo nas bodas de Cadmo e Harmonia em Tebas e subscritas por Eurípedes. 
Imagem: Fídias, Métopa do Pártenon, 447-432 a.C. Londres, Museu Britânico 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Biblio@rs (XVIII-XIV)


A Civilização Grega - o belo como representação (III)
Kouré é a designação para pequenas estatuetas que pertenceram ao período arcaico da Civilização Grega, o que antecedeu o período clássico. As estátuas de Korés adotam uma atitude convencional. Elas apresentam a oferenda de um fruto, de uma taça ou de um pássaro. Mas cada escultura se revela individualizada pelo estilo do artista e pelo momento da sua criação no decorrer da evolução da escultura arcaica.  
A estatuária da Koré tem um aspeto majestoso, revelando robustez. As Koré designavam jovens mulheres e tinham sempre na representação uma oferenda que podia ser uma ave, ou um pássaro que se encontrava posicionado perto do peito. Existe uma rigidez plástica e uma revelação do tipo de vestuário usado. 
As Korés eram estatuetas oferecidas durante o período arcaico à deusa Atena e encontraram-se diversas na Acrópole de Atenas. Em algumas Korés da fase arcaica encontraram-se algumas representações que levaram alguns arqueólogos a pensar tratar-se já de uma imagem de deusas, com destaque para as que se relacionavam com a natureza, como Artémis deusa da caça. As Korés são uma das primeiras formas para observar a representação humana e a ideia de beleza que a Civilização Grega foi construindo, embora ela tenha mudado significativamente no período clássico.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Biblio@rs (XVIII-XIII)

A Civilização Grega - o belo como representação (II)

Adónis e Afrodite (na civilização romana Vénus) identificam uma das formas de observar a representação do belo. Afrodite era a deusa do amor. A mitologia fenícia e grega atribuíam a Adónis as qualidades da beleza masculina e que se relacionou no próprio mito com os espaços temporais ligados à natureza. 
Adónis teria nascido da casca de uma árvore, devido à ira de Théias, rei da Síria. Afrodite maravilhou-se com a beleza do jovem e decidiu protegê-lo. Apaixonaram-se quando Adónis já tinha crescido, o que levou à fúria do Deus Ares. Adónis passou para o submundo, onde governava Hades e Perséfone. 
Afodite decidiu então instituir uma celebração anual para lembrar a tragédia e a sua perda. Estas celebrações anuais ocorriam em cidades da Grécia e da Pérsia, desde o século V a.C., durante os quais as mulheres plantavam sementes de várias plantas em pequenos recipientes, chamados jardins de Adónis. 
Este mito de Adónis relacionou-se com os ritos que simbolizavam a morte das plantas e a sua germinação que simbolizava a vida. O mito de Adónis e de Vénus preenche de forma continuada a representação da arte no Ocidente e dessa representação se constrói um histórico da beleza. Falaremos aqui um pouco dessa evolução da ideia de beleza enquanto idealização e representação do belo, no contexto da arte da Civilização Grega.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Biblio@rs (XVIII-XII)

 
A Civilização Grega - o belo como representação (I)
Hoje e há algumas décadas deixámos de lhe dar atenção. Mas a sua representação foi durante séculos uma forma de aprimoramento por uma ideia que tivesse na sociedade tanta substância como a verdade ou a justiça. Durante muito tempo a sua representação edificou valores, pensamentos, formas de estudo, técnicas artísticas e formas de ver o nosso lugar na vida e no Universo. Falamos do belo e da sua representação.
Mais do que as estátuas, os templos, ou as cidades foi esse ideal que criou uma possibilidade daquelas serem criadas e tornou possível a sua própria materialidade. Esse ideal de belo é uma imensa dádiva da Civilização Grega para muitos séculos que se seguiram e permitiu renovações do pensamento, da cultura, da dimensão humana em diferentes sociedades. Os gregos deixaram a sua voz no futuro, mesmo naquele que nós já não viveremos; deixaram a sua inspiração para o possível de novas ideias.
Antes de falar do belo como representação importa colocar uma questão prévia. Quando pensamos em belo vem-nos à mente tudo o que envolve a vida humana. E há nela uma ideia relativa da sociedade e da cultura. O que hoje achamos belo amanhã muda de sentido, pois os códigos de beleza alteram-se. E, no entanto ao olharmos para a Vénus de Milo, ou o Discóbolo de Mirone, expressões da arte grega encontramos ali uma representação de algo que achamos bonito, algo como uma representação substantiva de belo. 
 Às vezes olhamos, gostamos e não compreendemos. Não percebemos, mas achamos bonito. Em muitas circunstâncias o belo talvez seja não só o que ultrapassa a compreensão, ou que está para além dela, mas que é um encontro com algo de maravilhoso e que se possivelmente se mantenha na incompreensão. Visitar um templo, ou ver um quadro, ou admirar uma paisagem provoca-nos sentidos diferentes, mas achamos tais observações belas. E, todavia compreendemos a sua funcionalidade?
Desde os Gregos que a ideia de belo evoluiu. A sabedoria foi a primeira forma de belo, foi nas palavras dos poetas que ela primeiro se definiu, com o que conhecemos da obra de Homero e Hesíodo. O belo relaciona-se com essa dimensão essencial de todos, a vida ainda. Como a podemos alimentar? Com que palavras? Com que sabedoria habitaremos a vida e a sua essência, o seu coração?
Parece pois essencial ter algum pensamento, descobrir nela uma sabedoria para a construir, para a edificar. Os gregos tinham uma ideia para isso e vale a pena conhecê-la no que será a última abordagem nestas últimas duas semanas, sobre essa construção inteligível da vida, a que o belo e a sua representação se encontram associados.
Imagem: Friso do Pártenon