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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Promoção da leitura - Inciativas

A junta de freguesia de Alvalade promove entre 7 e 13 de Maio um conjunto de actividades, a que designou, Capital da Leitura. As actividades desenvolvem-se em torno do livro e da Literatura, tendo um destaque especial a obra de José Cardoso Pires.
Iniciativa que procura dirigir-se a diversos públicos, sendo todas elas de natureza gratuita. O seu cartaz de divulgação traz-nos o autor de Delfim, como uma citação muito pertinente sobre a leitura: "Lê-se para ter prazer. Lê-se para ter inquietação.".

Do vasto programa é possível destacar uma mostra documental e exposição sobre José Cardoso Pires, a realizar na Torre do Tombo. Iniciativa a ser realizada no dia sete, assim como a conferência a realizar por José Mário Silva e com alguns escritores importantes , como Mário de Carvalho ou Gonçalo M. Tavares . O local da realização deste evento será na Biblioteca Nacional, no Campo Grande.

No dia oito realiza-se uma conversa com Inês Pedrosa e o encenador João Silva sobre a censura. Esta iniciativa decorrerá na Appleton Square e irá incluir uma sessão dinamizada pelo Grupo de Teatro Terapêutico, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.

Ao longo da semana vão decorrer Ateliês de Conservação e Restauro na Torre do Tombo, assim como debates sobre "a emigração portuguesa  qualificada" e uma conversa com o editor de José Cardoso Pires, justamente Francisco Vale. No sábado será construído um mural junto ao mercado de Alvalade pelo artista SKRAN, em homenagem ao escritor José Cardoso Pires.

A terminar esta iniciativa de capital de Leitura, irá realizar-se no domingo, uma Feira do Livro Infantil e que decorrerá no Jardim dos Cravos, na Rua Teixeira de Pascoais, no Bairro das Estacas. Na parte da tarde decorrerá um Laboratório de Contos a não perder, com os Contabandistas de Histórias. Para este conjunto de iniciativas a Junta de Freguesia de Alvalade conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, da Biblioteca Nacional de Portugal, entre diferentes entidades da cidade.

domingo, 29 de abril de 2018

Manguel - os livros e a literatura


Alberto Manguel é um homem de livros, um bibliófolo e um apaixonado por esse espaço de recolhimento e silêncio que são as Bibliotecas. De certo modo é um homem de um mundo que se constrói a pensar, a ler e a escrever sobre esse pensamento e essa leitura. Em muitos aspectos é um sonhador, como Ulisses à procura de uma Ítaca, mas ainda à procura de uma resposta que de um ponto final permita fazer outros recomeços.

Alberto Manguel faz-nos pensar na Literatura, nas suas possibilidades, naquilo que as palavras permitem de identificação com os outros, do nosso próprio reconhecimento do mundo. Ele dá-nos essa certeza de como as Bibliotecas são espaços de renovação de cada um, nas suas perguntas essenciais. o que somos em cada momento? Com eles descobrimos que mesmo nesses espaços há histórias para encontrar, para a construção de uma identidade, mas afinal só as encontramos em parte. Afinal somos uma parte fraccionada do que julgamos ser.

Alberto Manguel é um wanderer, um viajante sem lugar fixo, um homem à procura de um espaço, onde possa colocar a sua Biblioteca. Afinal só ela é que lhe dá um sentido de pertença. Só ela para compor uma identidade no espaço dos fantasmas, da vida que mal se compreende. Só nela para deixar as perguntas que nunca são respostas, pois a Literatura ama a contradição da vida e joga nela todas as seduções do inesperado, dos outros. 
....

terça-feira, 10 de abril de 2018

Mês do livro e da leitura - abril 2018


Mês do Livro e da Leitura

Lemos com os ouvidos os barulhos da cidade,
com os olhos a beleza da paisagem,
com o cheiro o doce e o amargo e com o tato descobrimos
cada textura.

1 a 30 abril | Bibliotecas de Lisboa | (via RBE)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma Biblioteca... entre os livros e as pessoas...


Uma Biblioteca Escolar é um espaço de construção de uma intimidade com as palavras, de afecto com os livros e de apoio à aprendizagem pelos recursos que estão disponíveis e pelas actividades que se promovem. Uma Biblioteca é isto e um pouco mais. Deve ser um espaço de pessoas, um espaço de comunidade. Nos últimos três anos lectivos foi isso que tentou ser. Falou-se sempre em colectivo, pois é dele que deve nascer uma participação colaborativa daquilo que nos importa.

Os textos do blogue (perto de oitocentos nestes três últimos anos) foram identificados quando se publicaram mensagens ou trabalhos dos alunos. Os outros textos foram na grande maioria por mim escritos, o que nem é muito positivo, pois seria desejável que uma larga fatia de elementos desta comunidade participasse com as suas ideias. O Rainha em Folha, A Cozinha Experimental, os textos dos alunos e as apresentações de biografias no Caderno Digital foram a exceção.

Nunca achei que fosse preciso colocar o meu nome porque sempre me pareceu que a Biblioteca deve ser um espaço de todos. Da coleção às pessoas é o sentido de uma Biblioteca. Um texto por mim escrito: SalvadorSobral - Uma canção de milagre nas estrelas, levantou a algumas pessoas um sentido de desconforto. Embora me pareça excessivo aquilo que ouvi e em algumas das formas como foi feito, deu-se a possibilidade de o eliminar, ou que alguém quisesse exprimir alguma ideia sobre a sua temática que fosse diferente. Foi sempre a procura de participação aquilo que se tentou dinamizar em diferentes níveis e abordagens.

Devido a estas dificuldades e por sugestões recebidas, colocarei o meu nome nos textos por aqui publicados nos últimos três anos. Farei isso se o conseguir realizar, até 31 de julho, visto que são muitos textos.  Nas publicações de introdução de códigos HTML não farei essa alteração, até porque foram todos revistos pela equipa da Biblioteca. 

Sempre achei que eles, os textos e as publicações realizadas eram um modo de abordagem de uma Biblioteca. Tenho pena que com tanto tema estudado e abordado, em tantas e diversas disciplinas e, com o mundo a fazer-nos questionar sobre tanto assunto não se consiga trazer a voz escrita e o pensamento dos diversos elementos da comunidade educativa. Reconheço ampla e completamente o que escrevo e não queria fazer disso uma afirmação, porque o que mais importa é um sentido de um espaço essencial.  Foi apenas o que se tem procurado fazer. Abrir caminhos de pensamento.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Vinte anos de RBE - as Bibliotecas


Recomeçamos com as nossas palavras iniciais. As que nascem do livro e que se suportam em múltiplas páginas livros alinhados em estantes para descobrir universos passados, mundos por construir. As Bibliotecas são um espaço de construção da memória. Concentram uma dimensão de espaço e tempo, o que as remete para uma dimensão de divindade, por onde emergem páginas de sabedoria, em filas de amizade connosco vividas. Mesmo com os novos formatos ainda achamos que naquela matéria de eternidade reside um templo.

A Biblioteca deve ser vista como um espaço cultural, de confluência de várias artes. Deve permitir a promoção da capacitação institucional. A Biblioteca é o espaço para construir a leitura, fazer leitores, alimentar esse fundo de imaginação capaz de dotar todos de melhores possibilidades de vida, porque de escolhas suportadas em conjuntos de dados, de ideias, de pensamentos mais completos, mais divergentes. Uma Biblioteca faz assim o leitor.

A Biblioteca é um espaço, mas é sobretudo o que fazemos nela, as ideias que tivemos com ela, com os livros e as que ainda tentamos ter, nos dias seguintes. A leitura. É com ela que disciplinamos o olhar e em transformamos o olhar, o ver normal, óbvio para outra coisa, onde superamos o medo e dispensamos o útil. A leitura é um dos nossos maiores privilégios. É com a leitura que construímos na imaginação um campo de imagens.

Leituras de diferenciados suportes, mas ainda assim o desenho da palavra, à sua caligrafia. O alfabeto, o livro, o número baseiam-se nessa ideia de desenho do traço. Esse desenho da palavra conduz-nos à informação, à utilização da linguagem. A linguagem é uma ferramenta que usamos para nomear as coisas, mas também para dar existência à realidade. As histórias que lemos são a transformação pelas palavras de uma ideia transformadora de nós próprios. é sobre este universo que preenche as Bibliotecas que convidamos todos a participarem. A Biblioteca é o melhor lugar do mundo pela esperança que conserva em múltiplas vozes. Basta que as saibamos ouvir. É essa a viagem individual e de comunidade que vos propomos a realizar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dia Internacional das Bibliotecas Escolares


A biblioteca terá que ser o centro da sociedade. O homem é um animal leitor, leitor do mundo. Procuramos a constelação das narrações: quem são os outros e onde estamos. Desenvolvemos o poder da imaginação. Somos capazes de criar o mundo antes mesmo da criação do mundo.Temos que aprender a conduzir-nos no mundo e a contar histórias. Criamos bibliotecas porque precisamos de saber quem somos, de onde vimos e para onde vamos. As bibliotecas são a memória pública e a memória privada.

A biblioteca é a autobiografia de cada um. É o rosto de cada um de nós. As bibliotecas são também a biografia da sociedade, a sua identidade. As bibliotecas públicas são o rosto da comunidade. Nós somos o que a biblioteca nos recorda o que somos. Um livro conta a experiência de cada um, onde estão as paixões mais secretas e os desejos mais íntimos. “Clínica da alma” é a melhor definição de biblioteca. A centralidade da atividade intelectual está na clínica da alma!

Alexandre Magno viajava sempre com o livro A Ilíada. O livro fazia-o aprender que as vítimas são tão importantes como os triunfadores. Um rei da Pérsia levava sempre os livros da sua biblioteca quando viajava - 117 mil livros - por ordem alfabética. No séc. XV, o conquistador Pedro de Mendoza levou 7 livros para fundar a cidade de Buenos Aires, autores como Petrarca, Virgílio, etc. Um conquistador leva a história de um outro povo para fundar outro povo, para que a biblioteca seja universal.

Duas figuras simbólicas: o Papa Gregório I (séc. VII) decidiu que a Biblioteca Palatina não devia ter autores pagãos e decide queimá-la, elegendo só alguns autores para lá permanecerem; S. Isidoro de Sevilha que afixa à porta da biblioteca “Aqui há obras cristãs e não cristãs”. Temos que deixar S. Isidoro acompanhar-nos nas bibliotecas, na procura da universalidade.

Falar da universalidade para a biblioteca virtual é uma ambição: ter todos os livros do mundo e continuar a ter os mesmos problemas da biblioteca de Alexandria. Os bibliotecários de Alexandria para resolver o problema da pesquisa de um documento precisavam de um motor de busca para encontrar o livro. Temos que estabelecer uma forma de pesquisa na biblioteca universal, o motor de busca perfeito. A biblioteca virtual não pode bastar-se a si mesmo.

Vivemos num mundo incoerente, absurdo, as bibliotecas dão uma certa coerência ao mundo. Não podemos esquecer-nos. À porta da biblioteca eu colocava “Clínica da alma- aqui se encontram livros de todo o género”, e colocava também uma pergunta “para quem são estes livros, para quem é esta biblioteca? Para quem é a tecnologia? Isto dá responsabilidade à biblioteca!

Alberto Manguel. “Reading and libraries”. (resumo aproximado). 02.2012.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vinte anos de RBE - as Bibliotecas


(A RBE foi uma iniciativa de grande relevo para o papel das Bibliotecas nas escolas, para uma redefinição das estratégias colaborativas à volta do livro, das literacias e das aprendizagens. Quem conheceu as Bibliotecas antes dos anos noventa sabe como eram muitas vezes espaços desqualificados e sem capacidade para uma função integradora na escola.
Com a RBE nasceu uma ideia de partilha de competências e abordagens em rede e desenvolveu-se um conceito de Biblioteca como um espaço de afectos, onde todos cabem e onde os recursos permitem alimentar formas múltiplas de imaginação. Por esta ideia de Biblioteca criada pela RBE e alimentada por tantos, passa essa formulação essencial de com a Escola formar pessoas mais informadas, o que significa pessoas mais livres. Deixamos em baixo a mensagem da actual coordenadora nacional da Rede de Bibliotecas Escolares, Manuela Pargana Silva).

Em 1996 foi lançada a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE). Vinte anos depois, 2016 é o ano que dedicamos a celebrar o percurso feito, mas também, e sobretudo, a reflectir, a pensar em como podemos responder às exigências dos tempos que vivemos.  Tempos de grande aceleração, de crise de valores, de alterações profundas nos modos de perceber e de pensar. Como garantir que seremos abertos, flexíveis, adaptáveis e exigentes para garantir ao nosso público uma formação que lhes permita viver num mundo que ainda não sabemos como será?

Tudo vai depender de como formos capazes de perspectivar o futuro.
Com o trabalho, o esforço e a inteligência de todos - professores bibliotecários, coordenadores inter-concelhios, colaboradores do Gabinete RBE - chegámos até aqui com resultados de que nos podemos orgulhar.
Ao nosso lado temos parceiros próximos e valiosos que enriquecem o nosso programa, ao mesmo tempo que usufruem desta rede com créditos firmados.

Trabalhamos com professores, auxiliares, técnicos, mediadores de leitura, escritores e ilustradores, sempre concentrados no nosso público preferencial, os alunos, com quem também tanto temos aprendido.
A nossa forma de estar e de trabalhar é juntos e em rede e é assim que garantiremos que o que construímos nestes vinte anos não se torne passado ou ultrapassado. Conto com a energia de todos para concretizar o lema desta celebração: 20 anos RBE - uma história com futuro.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

As Bibliotecas: a palavra


As Bibliotecas são a mais bela invenção da humanidade. Nelas construímos uma memória e por isso nela vemos uma construção de divindade, por essa dimensão de espaço e tempo que connosco emerge em páginas de sabedoria, em filas de amizade connosco vividas. Há quem já não as ache um templo, pelas necessidades de leituras em novos formatos, pelas competências digitais que importa desenvolver. Continuo a achar que o espaço, aquela matéria de eternidade é ainda um templo. 

A Biblioteca permite ser um espaço de recolhimento, entre os livros, onde podemos desfrutar momentos de lazer e de conhecimento. Nos últimos anos tem-se insistido em classificá-las, em função da sua capacidade de construir colecções, serviços ou comunidades e destas dimensões haveriam de nascer as que seriam as melhores Bibliotecas. Ainda assim um templo.

A Biblioteca deve ser vista como um espaço cultural, de confluência de várias artes. Deve permitir a promoção da capacitação institucional. A Biblioteca é o espaço para construir a leitura, fazer leitores, alimentar esse fundo de imaginação capaz de dotar todos de melhores possibilidades de vida, porque de escolhas suportadas em conjuntos de dados, de ideias, de pensamentos mais completos, mais divergentes. Uma Biblioteca faz assim o leitor. E o que representa ler?

A Biblioteca é um espaço, mas é sobretudo o que fazemos nela, as ideias que tivemos com ela, com os livros e as que ainda tentamos ter, nos dias seguintes. A leitura. É com ela que disciplinamos o olhar e em transformamos o olhar, o ver normal, óbvio para outra coisa, onde superamos o medo e dispensamos o útil. A leitura é um dos nossos maiores privilégios.

É com a leitura que construímos na imaginação um campo de imagens. Por que ler é a partir das palavras e das frases, construir   as imagens que nos darão os mundos possíveis. Um bom leitor não lê apenas as frases, lê as imagens das palavras. Um mau leitor é o que apenas lê a frase. A palavra está muito ligada ao seu desenho, à sua caligrafia. O alfabeto, o livro, o número baseiam-se nessa ideia de desenho do traço. Deve pois, a Biblioteca acolher esse traço, envolver os leitores com esse desenho da palavra. Esse desenho da palavra conduz-nos ao livro.

Imagem - Galeria Vivienne, Paris.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

As Bibliotecas


"A Biblioteca terá que ser o centro da sociedade. O homem é um animal leitor, leitor do mundo. Procuramos as constelações da narração: quem são os outros e onde estamos. Desenvolvemos o poder da imaginação. Somos capazes de criar o mundo, antes mesmo da criação do mundo.

As bibliotecas são a memória privada e a memória pública. A biblioteca é autobiografia de cada um.É o rosto de cada um de nós. As bibliotecas são também a biografia da sociedade, a sua identidade. As bibliotecas públicas são o rosto da comunidade.

Nós somos o que a biblioteca nos recorda o que somos. Um livro conta a experiência de cada um, onde estão as paixões mais secretas e os desejos mais íntimos. "Clínica da alma" é a sua melhor definição. A centralidade da atividade inteletual está na clínica da alma!"...


terça-feira, 1 de julho de 2014

As Bibliotecas

"A Biblioteca terá que ser o centro da sociedade. O homem é um animal leitor, leitor do mundo. Procuramos as constelações da narração: quem são os outros e onde estamos. Desenvolvemos o poder da imaginação. Somos capazes de criar o mundo, antes mesmo da criação do mundo.

As bibliotecas são a memória privada e a memória pública. A biblioteca é autobiografia de cada um. É o rosto de cada um de nós. As bibliotecas são também a biografia da sociedade, a sua identidade. As bibliotecas públicas são o rosto da comunidade.

Nós somos o que a biblioteca nos recorda o que somos. Um livro conta a experiência de cada um, onde estão as paixões mais secretas e os desejos mais íntimos. "Clínica da alma" é a sua melhor definição. A centralidade da atividade inteletual está na clíca da alma!"...

Alberto Manguel, "Reading and Libraries", 11º Congresso da BAD
 (No dia mundial das Bibliotecas)
 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

As Bibliotecas

"As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem  está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros. Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha. Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. 

Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se  entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê. O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê. Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas. Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo.

Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam. As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé. 

Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se. 

As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas. Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. 

Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Lêem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. 

Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes. 

Este texto é um abraço especial à biblioteca da escola Frei João, de Vila do Conde, e à biblioteca do Centro Escolar de Barqueiros, concelho de Barcelos. As pessoas que ali leem livros saberão porquê. Não deixa também de ser um abraço a todas as demais bibliotecas e bibliotecários, na esperança de que nada nos convença de que a ignorância ou o fim da fantasia e do sonho são o melhor para nós e para os nossos. Ler é esperar por melhor". 

Valter Hugo Mãe, "As Bibliotecas", In Jornal de Letras, Maio de 2013
Imagem, O orfanato Safe Haven, Ban Tha Song Yang, Tailândia

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Livro - ler e ver

Gonçalo M. Tavares, na abertura do seminário, em Serralves, sobre as Bibliotecas, que futuro podem ter e o que podem ser fez uma brilhante apresentação do livro, como objecto, como material de uma cultura e como património da memória. Deixou-nos algumas ideias importantes que devemos tomar em conta quando falamos em Bibliotecas.

As Bibliotecas poderiam ser classificadas como medíocres, satisfatórias ou excelentes se forem respectivamente uma construção de colecções, de serviços ou de comunidades. Este último critério é o que nos devolve o que elas podem ser para redefinirem uma função formadora e mobilizadora na sociedade actual. É necessário redefinir a função da Biblioteca, pois a repetição funcional do passado transformará a Biblioteca numa arqueologia da História.

Nesta redefinição importa verificar o que é o livro? O que nos permite concretizar no universo das ideias? A leitura é um imenso privilégio, pois significa que superámos as mais baixas condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita.Podíamos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é um único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo.

Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, "o levantar a cabeça", imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, libertando-nos do tempo. Por isso a Biblioteca, como espaço de leitura assemelha-se a uma divindade, detentora de uma energia, como a de um templo.

A Biblioteca aprimora a concentração (cujo étimo do latim quer dizer, com um centro), promovendo o silêncio, a imobilidade e a individualização. Se a Biblioteca desistir desta sua  nobre função será outra coisa, que não um espaço acima do tempo e do espaço, onde os seus fantasmas nos falam dos temas eternos, o amor, a luz, a felicidade, a viagem, o outro. Deve assim a Biblioteca encaminhar os seus leitores ou utilizadores para um património literário e cultural que é a mais elevada forma de respeitarmos a nossa mortalidade. É a nossa graça, num tempo de cultivar as diferenças, mostrando estar disponível, ao tempo dos outros.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

BAD - reforçar o papel das Bibliotecas e Arquivos



A BAD - Associação Portuguesa de bibliotecários, arquivistas e documentalistas vive desde há alguns anos, um processo de renovação do seu papel na criação de uma identidade formativa de um conjunto de profissionais que sentem a informação como um recurso essencial nas sociedades contemporâneas, para o qual há um conjunto muito variado de ferramentas e conceitos a dominar.

No tempo da Web 2.0 e das bibliotecas digitais, onde os espaços dos livros são cada vez mais acompanhados pela construção de relações de acesso à informação de um modo mais individualizado e crítico na construção do conhecimento a partilhar em redes colaborativas, a BAD tem trazido uma abordagem mais visível com o seu Notícia Bad que nos traz contribuições diversas do mundo das bibliotecas e dos arquivos. As bibliotecas escolares que chegaram mais tarde ao domínio necessário da Gestão Documental, da Organização da Informação, das Leituras e Literacias e das Tecnologias de Iinformação e Comunicação têm aqui um apoio muito importante na formação dos professores bibliotecários, mas também na difusão das suas necessidades e visibilidade do que as comprometem no espaço escolar com a Informação.

A BAD torna possível desde há dois anos, a adesão a custos mais modestos da entrada nesta associação a professores bibliotecários, o que é uma oportunidade para aceder a formação de modo mais económico, mas também contribuir para a definição de uma identidade que é a do professor cuja missão numa escola é estimular o acesso mais rico e divergente à informação, como meio de expressão da cidadania. A quem quiser aproveitar a oportunidade para aceder e contribuir com a sua visão, aqui fica o acesso.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Começar

Bibliolines, título de um blog que pretender dar linhas soltas sobre um universo, onde a humanidade dos gestos é ainda uma das suas grandes características.

Universo, onde se juntam palavras, ferramentas, plataformas, suportes para chegar mais perto desse horizonte, capaz de orientar o homem e a sociedade na construção do conhecimento. 

Conhecimento por onde também transpira a liberdade do pensamento. Caminho sobre bibliotecas e tudo o que com elas se relaciona num espaço onde acedemos a uma ténue divindade, onde o espaço e o tempo parecem guardados para transformar o futuro.