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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - Breviário Mediterrânico (II)

A filologia do mar- rico de inteligência e de poesia, no que mistura de rigor e de temeridade, (...) de precisão científica e de epifania do infinito. 

A viagem, a descoberta de novos espaços iniciou a construção do que somos como civilização. A nossa identidade forjou-se nos espaços azuis do céu, nas gotas de sal que emergem das ondas, nos portos e faróis onde nos abrigámos. Nesta iniciação ao mundo onde se erigiram descobertas e saberes, sabores, alimentos e perfumes, a Europa nasceu e por ela expandiu formas culturais ao mundo. 

Dos mares, às rotas terrestres, da mareia às fortalezas marítimas, foi a viagem pelo mar que nos fez culturalmente, como civilização. Este mar no qual nascemos para o conhecimento do mundo, por onde contactámos a história romana com a explosão grega, o desafio árabe e a afirmação europeia é o Mediterrâneo.
 
Predrag Matvejevitch descreveu em Breviário Mediterrânico, a luz solar, o perfume das laranjeiras, o vento silvestre no olival, onde as azeitonas e o sal fermentam os dias. Com ele aprendemos, o que sentimos nas cidades onde o mar fez soprar o seu encanto por onde perdemos a voz com as sereias. Se a viagem nos fez descobrir o que somos,o mar, com os seus rios interiores e exteriores deu-nos a alegria de redescobrir outras paisagens, outras formas de ser. 

O Mediterrâneo é esse caminho estrelar por onde o sol e a luz abrem formas particulares de organização social e económica. O Mediterrâneo, tal como a viagem, a navegação constrói-se na lenda, na geografia, no perfume alto dos pinheiros, nas encostas de figueiras onde já prenunciam as areias do deserto e nas cidades que reflectem as suas aventuras. Todas as palavras são instrumento e memória da linguagem precisa e enérgica que é o milagre do mar. Dando consistência ao particular, juntando no quotidiano as formas imaginativas da civilização. É um pequeno grande livro que constrói uma epifania de uma geografia e que completa de modo poético o livro, O Mediterrâneo de Fernand Braudel.
Imagem - Salento, na zona mais meridional da Itália Copyright - The Thinking Traveller

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - Breviário Mediterrânico (I)


 Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar. Para os Gregos, de leste para oeste, estendia-se do Fásis, no Cáucaso, até às colunas de Hércules; consideravam implícita a sua fronteira natural a norte e às vezes não se preocupavam com os seus limites a sul. 
Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém. Nem sempre, nem em toda a parte é assim: há lugares na costa que não são marítimos, ou que o são menos que outros, mais afastados dela. 
Há lugares em que o continente não se alia ao mar, em que se revela difícil a concordância entre eles. Noutros pontos, o carácter mediterrânico abrange mais vastas porções do continente, penetra-as mais com a sua influência. O Mediterrâneo não é apenas uma geografia

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - Viagens (II)


"... nem cristão, , nem pagão,  sarraceno ou tártaro, nem nenhum homem de nenhuma geração viu, nem explorou tantas maravilhosas coisas do mundo, como o fez o senhor Marco Polo..."

 Viagens de Marco Polo narrados por Rusticiano de Pisa, que fez a compilação desta aventura é um dos grandes livros da História Universal.  Chamado Livro das Maravilhas conta-nos uma viagem ao interior da Ásia mais remota. Conduzidos pela ideia da descoberta e de encontrar formas de apoiar o comércio de Veneza no Mediterrâneo oriental chegaram a locais tão distantes como o Mar Negro, a Mongólia ou a China. Contactaram a Pérsia e a Arménia chegando à presença do Grande Khan, imperador chinês. Este confiando em Marco Polo confiou-lhe missões diplomáticas em terras distantes. Marco Polo foi o primeiro ocidental a chegar tão longe e a ter uma proximidade tão íntima com extensas áreas do Oriente.

Marco Polo regressaria a Veneza. Foi numa  batalha naval entre Génova e Veneza que Marco Polo conheceria uma importante figura de Pisa, Rusticiano que compilaria as narrativas de viagem de Marco Polo sob o nome Il Milione que se traduziu num enorme sucesso. A edição francesa dar-lhe ia o nome Le Divisiament du monde (A Descoberta do Mundo) ou Livre des Merveilles (Livro das Maravilhas). A importância do livro para a época é significativo pela amostra de paisagens humanas e civilizacionais que mostra. O livro tem a grandeza de ser escrito numa abordagem quase antropológica de relato do que se observa, da diversidade humana. Não se encontram condenações morais ou religiosas, pelo que é uma rica fonte de conhecimento do Oriente no final do século XIII.

O livro foi um sucesso pelo público a que procurava chegar, mercadores e cortes, missionários e geógrafos. Ainda o é, pela experiência que foi, pelo itinerário que nos permite conhecer e que certamente justificaria um conjunto diverso de publicações no blog, mas também pelo imaginário literário que criou. Italo Calvino criou um livro maravilhoso a que temos dado uma particular atenção, onde colocou justamente Marco Polo e Hublai Khan a falar sobre as cidades invisíveis de famosos reinos. Livro das Maravilhas de Marco Polo faz-nos lembrar uma outra viagem, a de Fernão Mendes Pinto e a sua Peregrinação.É desconcertante a diferença, pela partida com diferente motivação e de resultados também diversos. Dois séculos depois a Ásia e os homens parecem ter mudado para um sentido mais violento. 

Livro das Maravilhas é ainda uma grande livro pela lição civilizacional que nos oferece para os tempos de hoje. A sua mensagem de tolerância e curiosidade pelo mundo é ainda algo que devemos valorizar. Maravilhas do Mundo é ainda e talvez isso seja o mais importante, uma clara confiança no homem como construtor de cidades, de civilizações de trocas, de memórias, de sinais, de nomes, onde se reconhecem formas multiculculturais do viver humano.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - Viagens (I)


O senhor Nicolau e o senhor Mateus e Marco, filho do senhor Nicolau, caminharam tanto que chegaram junto do Grande Cã, numa cidade chamada Chemenfu, muito rica e grande. aquilo que encontraram no caminho não se conta agora, pelo que se contará mais tarde. Demoraram três anos a percorrê-lo devido ao mau tempo e aos rios, que transbordavam, quer de Inverno quer de Verão, e, por isso, não podiam cavalgar. quando o Grande Cã soube que os dois irmãos vinham, ficou muito satisfeito e mandou os mensageiros ao seu encontro quando faltavam ainda quarenta dias de viagem; e foram muito obsequiados e venerados.

Quando os dois irmãos e Marco chegaram à grande cidade, foram ao palácio real, onde estava o Grande Cã com muitos fidalgos e ajoelharam-se diante dele, cumprimentando-o com a máxima reverência. Ele mandou-os levantar e mostrou muita alegria, e perguntou quem era aquele jovem que estava com eles.

O senhor Nicolau disse: "Ele é vosso homem e meu filho". O Grande Cã disse: "Que ele seja bem-vindo, dá-me muito prazer". Entregues as cartas e privilégios que traziam do Papa, o Grande Cã ficou muito satisfeito, e perguntou como tudo lhes tinha corrido. "Senhor, bem, já que o encontrámos em esplêndido estado de saúde". Aqui houve uma grande alegria pela sua vinda e durante todo o tempo que permaneceream na corte tiveram maiores honras que qualquer outro barão. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - As cidades invisíveis (II)


"(...) quem ouve só fixa as palavras que deseja (...) Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido" (pág. 142)

Em As cidades invisíveis, Italo Calvino revela-nos como a cidade se constrói, se delimita, se habita com o seu nome, com a morte, com os espaços celestes, com a respiração de um tempo infinito. As cidades ocultas, as que apenas se pressentem e as que indiferentemente conhecemos, as que estão em toda a parte. E que gestos, que modos fazem transformar a cidade, os seus espaços, a sua transfiguração, de modo a que ela seja "cristalina, transparente como uma libélula"(pág. 165). A cidade dos enraízados e a dos que viajam, dos que sonham, dos que ambicionam o sonho da errância, como se revivem, como se libertam? E não é cada cidade uma junção de todas as que nela viveram, ousaram ser um espaço acima de qualquer tempo?

As cidades invisíveis dá-nos ainda um diálogo fascinante entre Marco Polo e Kublai Kan, o imperador dos Tártaros e remete-nos para as possibilidades da construção do Império,  de qualquer um. O que pode o viajante Marco Polo explicar ao Imperador pelas suas viagens, as suas descrições. As palavras, o pensamento, a memória, o desejo de Marco Polo permitirá a Kublai Kan compreender a filigrana que organiza a cidade? A viagem de Marco Polo ou o Império de Kublai Kan são apenas o reconhecimento do pouco que a sua vida terá, que a nossa vida terá, no sonho do tanto inconcebível de concretizar, das cidades fixadas em palavras, ou perdidas em fórmulas inverosímeis.

No fim, pode ser traçada uma ordem invisível que governe as cidades, que nos faça compreender a sua orgânica como organismo vivo? O  real, a materialidade do império reduzido à sua essência, conduz-nos a um intrigante nada. A inútil concretização do nada, nas ruínas dos conquistadores.

Na inútil tentativa de encontrar a cidade descontinuada no espaço e no tempo, encontrá-la significa que no desconcerto da vida, precisamos saber reconhecer a força bela que a poderá fazer renascer, o que de melhor pode viver em nós. É a cidade invisível que vive acima do que é visível, do que não vemos, das ruínas do tempo. A cidade invisível também como formulação de uma esperança, a energia para uma libertação, a que permite construir caminhos novos, o progresso civilizacional que alguns sonham e que importa reconstruir em cada geração.

Italo Calvino.(2012). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal, pág. 142
Imagem, "Ciutat", Tomasz Pietryk

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - As cidades invisíveis (I)

…  Recém-chegado e ignorando completamente as línguas do Levante, Marco Polo não podia exprimir-se de outro modo que não fosse retirando objectos das suas malas: tambores, peixes salgados, colares de dentes de facóquero, e indicando-os com gestos, saltos, gritos de espanto ou de horror, ou imitando o latido do chacal e o piar da coruja. (…)

Mas o que tornava preciosos a Kublai todos os factos ou notícias referidos pelo seu inarticulado informador era o espaço que ficava à volta deles, um vazio não preenchido por palavras. As descrições   das cidades visitadas por Marco Polo tinham esse dom: podia andar-se por elas com o pensamento, nelas podíamos perder-nos, para apanhar fresco, ou fugir a correr. Com o passar do tempo, nos relatos de Marco as palavras foram substituindo os objectos e os gestos: primeiro exclamações, nomes isolados, áridos verbos, depois pedaços de frase, discursos ramificados e frondosos, metáforas e hipérboles. (…)


Kublai Kan apercebera-se de que as cidades de Marco Polo eram todas parecidas, como se a paisagem de uma para a outra não implicasse uma viagem mas sim uma troca de elementos. Agora, de todas as cidades que Marco lhe descrevia, a mente do Grão Kan partia por sua conta e risco, e desmontada a cidade peça a peça, reconstruía-a de outro modo, substituindo ingredientes, deslocando-os, invertendo-os. Marco continuava a informá-lo da sua viagem, mas o imperador já não o ouvia, interrompia-o: – De agora em diante serei eu a descrever as cidades e tu verificarás se existem e se são como eu as pensei. (…)


Do número das cidades imagináveis temos de excluir aqueles cujos elementos se somam sem um fio condutor que os ligue, sem uma regra interna, uma perspectiva, um discurso. São cidades como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror. As cidades como os sonhos são construídos de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja o secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondem outra. (…)


O Grão Kan contempla um império recoberto de cidades que têm peso sobre a terra e sobre os homens, a abarrotar de riquezas e de movimento, repleto de ornamentos e de incumbências, complicado de mecanismos e de hierarquias, inchado, largo, pesado. “É o próprio peso que está a esmagar o império”, pensa Kublai, e nos seus sonhos agora surgem cidades leves como papagaios de papel, cidades perfumadas como rendas, cidades transparentes como mosquiteiros, cidades nervuras de folhas, cidades linhas da mão, cidades filigrana para ver através da sua opaca e fictícia espessura.



Italo Calvino. As cidades invisíveis. Lisboa:Teorema. 2011.