"Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono
...
Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.
...
Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.
...
Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.
...
José Jorge Letria, «Quando Eu For Pequeno»,
in O Livro Branco da Melancolia
Imagem, Claudia Tremblay, Maternitat
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domingo, 6 de maio de 2018
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Dia internacional do livro infantil
A dois de
Abril celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil, em memória de uma dos mais importantes escritores para o público infanto-juvenil (Hans Christian Andersen) e para celebrar a importância do livro infantil. Objecto de leitura e de prazer lúdico como elemento formativo e de incentivo à imaginação. A IBBY (International Board on Books for Young People) todos os anos procura um escritor que se dedicando à escrita de livros para o público infantil possa deixar uma mensagem para celebrar este dia. A mensagem de 2018 foi escrita por Inese Zandere, escritora da Letónia com uma obra premiada há já algum tempo. Eis a mensagem que vale a pena ler e pensar como leitura de um objecto primordial.
"As
pessoas inclinam-se para o ritmo e para o equilíbrio, tal como a energia
magnética organiza as aparas de metal numa experiência da física, tal como um
floco de neve forma cristais a partir da água.
Num conto de fadas ou num poema, as crianças
gostam de repetição, de refrãos e de temas universais, porque eles podem ser
reconhecidos uma e outra vez – trazem ao texto regularidade. O mundo ganha uma
ordem bonita. Ainda me lembro como, em criança, lutava comigo mesma para
defender a justiça e a simetria, pela igualdade de direitos da esquerda e da
direita: se tamborilava com os dedos em cima da mesa, contava quantas vezes
tinha de bater com cada dedo, para que os outros não se sentissem ofendidos. E
quando aplaudia, batia com a mão direita na esquerda, mas depois pensava que
não era justo e aprendi a fazê-lo de maneira contrária – batendo com a esquerda
na direita. Este desejo instintivo de equilíbrio parece engraçado, é certo, mas
mostra a necessidade de evitar que o mundo se torne assimétrico. E eu tinha a sensação
de ser a única responsável por todo o seu equilíbrio.
A inclinação das crianças por poemas e por
histórias surge igualmente da sua necessidade de levar harmonia ao caos do
mundo. Da indeterminação, tudo tende para a ordem. As canções infantis, as canções
populares, os jogos, os contos de fadas, a poesia – são formas de existência
ritmicamente organizadas que ajudam os mais pequenos a estruturar a sua
presença no grande caos. Criam a consciência instintiva de que a ordem do mundo
é possível, e que as pessoas têm nele um lugar único. Tudo conduz para este
objetivo: a organização rítmica do texto, as linhas com letras e o design da
página, a impressão do livro como um todo bem estruturado. O grande revela-se
no pequeno, e damos-lhe forma nos livros infantis, mesmo quando não estamos a
pensar em Deus ou na dimensão fractal. Um livro infantil é uma força milagrosa
que favorece o enorme desejo das crianças e a sua capacidade de ser. Promove a
sua coragem de viver.
Num
livro, o pequeno é sempre grande, de forma instantânea e não apenas quando se
chega à idade adulta. Um livro é um mistério onde se pode encontrar algo que
não se procurava ou que não estava ao nosso alcance. Aquilo que os leitores de
uma certa idade não conseguem compreender, permanece na sua consciência como
uma impressão, e continua a atuar mesmo quando não o compreendem totalmente. Um
livro ilustrado pode funcionar como uma arca do tesouro de sabedoria e cultura
mesmo para os adultos, da mesma forma que as crianças podem ler um livro para
adultos e encontrar nele a sua própria história, um indício para as suas jovens
vidas. O contexto cultural molda as pessoas, estabelecendo as bases para as
impressões que se farão sentir no futuro, assim como para experiências mais
difíceis, às quais terão de sobreviver sem por isso terem de deixar de ser
íntegras.
Um
livro infantil representa o respeito pela grandeza do pequeno. Representa um
mundo que se cria de novo uma e outra vez, uma seriedade lúdica e preciosa, sem
a qual tudo, incluindo a literatura para crianças, seria apenas um trabalho
pesado e vazio."
Inese Zandere, " O pequeno torna-se grande num livro", IBBY, 02.04.2018
Imagem - Cartaz para a versão portuguesa, Fátima Afonso
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Salvador Sobral - Uma canção de milagre nas estrelas
O fim-de-semana de 12
e 13 de maio prometia algumas possibilidades. Como todos sabemos superou as
melhores expectativas. Na ligeireza que nos caracteriza a comunicação social
juntou tudo num pacote. O País terá vivido um milagre, ou um conjunto de três milagres.
E, no entanto são coisas muito diversas.
1. Fátima é aquilo
que se conhece. Existem os que acreditam e os que duvidam. A canonização
interessa sobretudo aos crentes e ao discurso da Igreja Católica. Em Fátima
esteve o Papa, uma figura inspiradora, o único líder que o Mundo dispõe com
credibilidade para a sensibilização de uma ideia de justiça. Mas não foi um
milagre. O Papa ainda vai onde quer e a sua vinda foi para celebrar um evento
do imaginário de uma religião. E, como sabemos nem todos professam uma ligação
ao sagrado, nem se reconhecem nesse imaginário. Ficou-se com a alegria de um
homem de que se espera o impossível, justamente a reforma de uma pesada
hierarquia para uma ideia de espiritualidade mais próxima das pessoas.
2. O Benfica também
não se enquadra num milagre. A equipa está habituada a ganhar, às vezes ano
sim, ano sim, outras vezes nem tanto. A vitória do Benfica enquadra-se dentro
da estatística de probabilidades que um clube pode obter. É verdade que são
muitos milhões a torcer por um clube e um desporto, mas não é, nem nunca foi um
milagre. A magia que alguns vêem é apenas a azelhice dos adversários, ou as
capacidades olímpicas que os seus felizes jogadores possuem. Milagre? Não me
parece!
3- Salvador Sobral
chegou a Kiev e conseguiu pela primeira vez obter o primeiro lugar no Concurso
da Eurovisão. E apesar de vos parecer um exagero, foi aqui que os jornais
acertaram. Foi um milagre. Não por que tenha sido a primeira vez em cinco
décadas que Portugal o conseguiu. Não! As razões são outras. Miguel Esteves
Cardoso falou do seu humor no momento de conhecer a vitória, do reconhecimento
feito aos músicos, do sentimento, da emoção e da sua evidente humildade.
Salvador Sobral
realizou um milagre por muitas razões.
Pela vitória que é
indiscutível e pela forma como recolou as pessoas a verem um formato de media
ultrapassado nos seus conteúdos há décadas. Por ter apontado a necessidade de a
música se dirigir para a contemplação interior de uma emoção, não adereços
externos projetados para um exterior vazio. Por ter falado nos direitos humanos
e por essa ideia que todos devíamos aprender. A de que quando temos um palco
devemos utilizá-lo, projetar mensagens que façam pensar os outros, que os façam
refletir, sobre os gestos que todos em conjunto podemos tentar influenciar ou
alterar. A dádiva de ver e de sentir o essencial. E sobretudo pela língua, essa
Pátria de que falou Pessoa.
E já agora, convinha
aprendermos alguma coisa. Não dizermos, como o fizeram filas de jornais e
televisões, à saída das primeiras imagens, como crianças sem pensamento. A de
que este fim-de-semana foi a materialização da famosa fábula de Salazar,
“Fátima, futebol e fado”. Não foi! Foi outra coisa. Pode ser outra coisa.
Iluminar palavras e não ter a pretensão de ser o máximo e juntar arte e
sentimento, como disse MEC é um milagre e um princípio. Depende de cada um
compreender isso e tentar construir essa essência que mora na melodia das
coisas.
quinta-feira, 30 de junho de 2016
Os sonhos mais delicados - à memória de Saint-Exupéry
Olhamos para as suas palavras e
parecem-nos oráculos de sabedoria. Verificamos a sua vida e encontramos os
gestos permanentes da coragem. Medimos a sua respiração e é sempre um sonho
feito de consciência. Medimos a sua respiração feita de solidariedade e empenho
e encontramo-nos perante as mais evidente formas de beleza. Verificamos em cada
um dos seus vôos uma queda vertical contra a tirania, essa forma absurda de
existir contra os outros. Bebemos nas suas palavras linhas permanentes de
consciência. Uma insistente forma pela viagem, a vinculação pela aventura, a
geografia do poema em cada forma de possíveis, esses laços essenciais de que a
raposa também conhecia.
Ele foi o principezinho, um
continente de procura e descoberta de planetas infindáveis de sonhos, mesmo
aqueles que são habitados por pequenos homens, repositórios de doenças do
espírito, a visão de uma cidade sem moral, sem a inteligência dos gestos do amor
mais terno. Foi, é uma figura universal e aquilo que dele vimos é que foi quase
um milagre que um homem destes por aqui tenha andado, de mãos dadas com a
fantasia, a única forma de ver em dias de espuma sem espanto. Nasceu há um
pouco mais de cem anos em Lyon, há justamente cento e quinze e foi um escritor,
um ilustrador e deu a vida pelo combate por essa doença maior do espírito, o
nazismo.
Estudou mecânica, entre 1909 e 1914
no colégio de Notre-Dame, em Mans. A partir de 1914 muda-se para a Suiça, para
a cidade de Friburgo. A partir de 921 integra 0 2º Regimento de Aviação de
Estraburgo. Em 1926 começa a sua carreira na aviação civil fazendo a carreira
entre Toulouse, Casablanca e Dacar. Tornou-se um piloto com grande
experiência no deserto, do qual diria “este silêncio não é igual a nenhum
silêncio.” Morreu sobre a costa de Marselha durante a 2ª guerra mundial. Deixou
uma obra de grande valor humanista, ele que era maior que o Humanismo e onde
encontramos os temas que lhe ocuparam a vida. Escreveu para diferentes jornais,
onde reflectiu sobre esse desastre humanitário que foi a Guerra civil de
Espanha, ou a ocupação alemã da França. Da sua obra destaca-se
evidentemente O Principezinho, datado de 1943, que foi escrito durante o
seu exílio nos Estados Unidos. Outras obras merecem referência, as publicadas
em vida e as póstumas:
Em vida:
* O aviador – 1926
* Correio do Sul – 1929
* Vôo Noturno – 1931
* Terra dos Homens – 1939
* Piloto de Guerra – 1942
* O Principezinho – 1943
* Carta a um refém – 1943/1944
Póstumas:
* Cidadela – 1948
* Cartas de juventude – 1953
* Cadernos – 1953
* Cartas à sua mãe – 1955
* Escritos de guerra – 1982
Este homem extraordinário é uma
memória viva do século XX e a demonstração de como somos sempre qualquer coisa
que vive dos muitos que por nós passam. O questionamento que deixou no Principezinho e
a releitura que nos propõe dos nossos julgamentos, das nossas precárias formas
de sucesso são uma pérola de sabedoria. A criança que fomos, um ideal para
olhar o mundo com ternura antiga e esse valor de humanidade, essa
constância de eternidade que cada vida pode ser. Chama-se Antoine de
Saint-Exupéry e continua por aqui, para os que ainda saibam olhar o real e as
cores universais da beleza.
terça-feira, 28 de junho de 2016
As cidades do espírito
Pois eu tenho visto muitas vezes a piedade
se perder. Mas nós que governamos os homens, temos que aprender a sondar com
seus corações afim de não ministrarmos nossa solicitude senão como objecto
digno de estima. Mas essa piedade, eu a recuso nas feridas que se exibem que
comovem o coração das mulheres, como recuso aos agonizantes, e aos mortos. E
sei porquê. (…)
Morada dos homens, quem te fundaria sobre
o raciocínio? Quem seria capaz, segundo a lógica, de te edificar? Existes e não
existes. És e não és. És feita de materiais díspares, mas é preciso te inventar
para te descobrir. De mesmo modo que aquele que destruiu a sua casa com a
pretensão de conhecê-la, não consegue mais que um monte de pedras, tijolos e
telhas, não encontra nem sombra nem silêncio nem intimidade para o que elas
serviam, e nem sabe que serviço esperar desse monte de tijolos, pedras e
telhas, pois falta-lhe invenção que os domine, a alma e o coração do arquiteto.
Pois falta à pedra a alma e o coração do homem. (…)
Assim sobre a virtude. Meus generais, em
sólida estupidez, vieram falar comigo sobre a virtude: ‘Vocês aí, disseram-me,
que os costumes se corrompem. E é porque o império se decompõe. É preciso
endurecer as leis e inventar sanções mais cruéis. E cortar as cabeças daqueles
que fracassarem.’
Eu, pensava, comigo:
‘Talvez seja preciso cortar cabeças. Mas a
virtude é, de início, consequência. A corrupção dos homens é antes de tudo a
corrupção do império que determina os homens. Pois se estivesse ele vivo e são,
ele exaltaria a nobreza dos homens.
Aquele que vem até mim com sua linguagem
para apreender e exprimir o homem na lógica de sua exposição, parece-me
semelhante à criança que se instala ao pé do Atlas com seu balde e uma pá, e
formula o projeto de pegar a montanha e a transportar para outro lugar. O homem
é o que é, não o que se exprime. Certamente que o objetivo de toda consciência
é se exprimir o que é, mas a expressão é obra difícil, lenta e tortuosa, – e o
erro está em crer que não é isso que não pode primeiramente enunciar. Pois
enunciar e conceber têm o mesmo sentido. Mas é frágil a parte do homem, naquilo
que eu até hoje aprendi a conceber. Mas, isso que eu concebi um dia não existia
menos no dia anterior, e eu me engano se eu imagino que isso que eu não pude
exprimir do homem não é digno de ser considerado.
Pois assim eu não exprimo a montanha, mas
a significo [dou significado a ela]. Mas eu confundo significar e apreender. Eu
significo a quem já conheça, mas aquele que a ignora, como saberei lhe
transmitir esta montanha com suas ravinas de pedras rolantes e seus flancos de
odores e seu topo escarpado rumo às estrelas? E eu sei quando esta não é uma
fortaleza arrasada ou um barco sem direção do qual se solta a corda do anel de
ferro para deslocar para onde quiser – mas existência maravilhosa com as leis
de sua gravitação interna e seus silêncios mais majestosos que o silêncio da
maquinaria das estrelas.
Fragments (I), (III) e (XVI) e (XXX)
terça-feira, 19 de abril de 2016
Darwin e as Ciências - campos de alargamento
"No
futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A
psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de
cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do
homem e sua história."
Charles
Darwin, em A Origem das Espécies, 1859
Charles
Darwin é possivelmente o maior pensador do século XIX, pois formulou uma teoria
que mudaria o modo como vemos a vida, o universo dando grandes contributos para
o alargamento da Ciência com o surgimento progressivo de nos campos do
conhecimento. Publicado a vinte e quatro de Novembro de 1859, Sobre a origem
das Espécies através da selecção Natural, ou a Preservação das Raças
favorecidas na luta pela Vida (o seu título completo) foi a mais importante
publicação de Darwin. Teve um enorme sucesso imediato e criou uma significativa
polémica no campo civil e religioso.
O livro deu
um contributo extraordinário para o mundo cultural, pois trazia abordagens
novas sustentadas por dados. As críticas ao livro fundamentavam-se na ideia de
que todos os seres vivos tinham origem em processos inteiramente naturais.
Neste sentido o livro abalava os fundamentos da sociedade, pois desafiava todas
as concepções anteriores sobre os seres vivos e foi o embrião para as
transformações culturais e sociais que ocorreram no Ocidente durante
Oitocentos. Num certo sentido o sentido moral e ideia divina de séculos
anteriores perder-se-iam às portas do século XX e nesse sentido é uma obra de
referência.
As suas
ideias acabaram por ser aceites pela comunidade científica e pelas pessoas de
um modo geral. A teoria da selecção natural parecia encontrar na realidade
formas de a aceitar. Na década de 30 do século XX a teoria estava já plenamente
aceite. A partir dela nasceu a a teoria evolucionista. A Biologia ao explicar a
diversidade da vida acaba por ser devedora das ideias de Darwin. A importância
de Darwin foi ter permitido alargar outros campos do conhecimento. Além das
Ciências Biológicas, áreas como a Antropologia ou a Psicologia. Abriu
possibilidades de ver o Ambiente e a Terra como um espaço em evolução.
Alguns
viram nas ideias de Darwin uma incapacidade de responder satisfazer a todas as
questões que a Bioquímica trouxe. As complexas funções químicas e biológicas do
Homem poderiam ser explicadas apenas a partir de um passado evolutivo? Michael
Behe, em A caixa negra de Darwin acredita que não. Os
criacionistas têm procurado mostrar algumas limitações da teoria da Evolução. É
o campo de análise entre Ciência e Fé. É evidente, todavia que a selecção
natural é um pilar da Biologia, pois a resistência das bactérias, ou a evolução
das florestas a efeitos de aquecimento global estão presentes. O próprio
sistema global da Terra, o seu clima de que Al Gore tem falado é um elemento de
alargamento desta teoria.
O nosso
mundo económico vive igualmente das suas ideias, pois quando se protegem
empresas de fechar não se está a contrariar a selecção natural e a diminuir a
possibilidade de desenvolvimento da sociedade?
A questão
da evolução a partir de um ancestral comum parece evidente e confirmada pelos
estudos de DNA. A pergunta que importa responder é a seguinte: estará a espécie
humana ainda em evolução e será esta selecção natural integradora de
características físicas do homem, ou incluirá também aspectos comportamentais? É
uma pergunta para o futuro que nos conduz ao valor significativo da obra de
Charles Darwin.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Memória de uma estrela cintilante
"...faço também parte de uma
geração que, na Europa, na América, e noutras partes do mundo, quis levar a
ciência para a rua, levar a experimentação para a escola, trazer a argumentação
científica para dentro dos debates de sociedade e para a decisão política
democrática. " (Análise social, 2011)
José Mariano Gago, foi um exemplo. José
Mariano Gago foi um cientista que nos deu a ciência como suporte de formação no
nosso quotidiano, o das escolas e o das pessoas. José Mariano Gago foi um
ser humano acima das pequenas palavras, que desbravou formas de estimular a
Ciência como forma de conhecer o mundo e as pessoas. Nessa atitude de
desbravamento ousou criar possibilidades entre as barreiras dos pequenos
espíritos.
José Mariano Gago é uma daquelas raras
pessoas que a "política" tem em milénios de uso. José Mariano Gago
estudava a ciência como forma de todos podermos participar como comunidade.
José Mariano Gago superou em galáxias de distância os pequenos gestos que vemos
em tantos dias em políticas de marginal grandeza.
José Mariano Gago foi o canto de cisne
de uma cultura democrática perdida tantas vezes em palavras sem substância. Ele
foi um exemplo do que poderíamos ser, se percebêssemos o valor da educação e do
conhecimento para construir futuros. Foi, como disse o Miguel Esteves Cardoso,
um herói, um homem bom. Um cientista que chegou à governação para dar um
contributo positivo à ciência e foi por isso um benfeitor. A política neste
País não é servida por exemplos destes. Vejamos nele alguém que nos ensinou o
essencial.
Aguardemos e lutemos para que a
intervalos intermitentes, o seu espírito desça a vontades dignas de uma
comunidade que se sabe pensar e existir em decência e grandeza de espírito.
Partiu há um ano e é uma memória da nossa melhor forma de ousar pela imaginação
novas fronteiras a descobrir. Obrigado José!
quarta-feira, 16 de março de 2016
Compreender o génio de Einstein
Quando
um pensamento percorre incessantemente o universo, quando se aventura e se
perde em distâncias incomensuráveis, na infinidade dos possíveis, e se volta
por um momento a fim de se fixar nas minúsculas que relas da Terra,
reivindicações de fronteiras, possessões, insultos e ameaças recíprocas
lançadas de um lado e do outro de uma linha imaginária, de uma cadeia
montanhosa, de um rio, de um posto alfandegário, um nacionalismo estreito,
mesquinho, que nos deixa paralisados, o que dizer?
Como reagir, no regresso
das estrelas?
Um tal pensamento
dificilmente poderá misturar-se às miseráveis lutas terrestres. Vê as pequenas
coisas de demasiado longe. As estrelas não são propriedade de ninguém. (...)
- Está
guardado para quê?
- Para
trabalhar, com certeza, já lho disse. Para prosseguir com as minhas
investigações. Para dar a nossa opinião sobre as opiniões dos outros, como
Newton continua a fazer com as minhas.
Mas com uma má-fé
total. praticamos a ciência espectral. Parece que as nossas equações, nas minhas
em particular, existem segredos, tão bem escondidos que nos passaram
despercebidos. Assim, andamos à procura, obstinadamente, todos juntos,
juntamente com os que estão ali, na sala de espera, com os que me escrevem, com
os que me telefonam.
Aquilo que nos é
concedido não é grande coisa na corrente da eternidade. Uma pequeníssima
vitória sobre a morte. Sobre a morte física. A ilusão de ainda estarmos vivos.
E Newton, que preferiu ficar acima da discussão, deve sentir que, desta vez, os
seus sobressaltos não vão prolongar-se, que está a ser usado, que já está fora
da corrida, que em breve vai dissolver-se e juntar-se ao enorme grupo
silencioso das sombras sem utilidade. Desta vez, sem esperança de regresso. Mal
deixará quinze ou vinte linhas na história geral das ciências.
- E o senhor
também?
- Com
certeza. Apagamo-nos uns aos outros. E cada um de nós guarda no bolso algumas
migalhas de todos aqueles que nos precederam.
(...)
- O
pensamento desta espécie - ínfima no universo - é necessariamente limitado a si
mesmo. O pensamento das formigas exerce-se ao nível das formigas e o dos homens
ao nível dos homens. Estabelece os seus próprios critérios, as suas próprias
regras de verificação, e admira-se de que aquilo que observa corresponda àquilo
que decretou.
A jovem disse-lhe
ainda: o pensamento humano apenas tem como referência o pensamento humano. As
leis que ele descobre e verifica no universo, nada nos diz que existam numa
realidade absoluta e, mesmo que existam fora de nós, que sejam justas. Não
passam de uma projecção de nós mesmos, só são justas para nós. Como dizem
com insistência os partidários da quantidade, os realistas, é até provável que
o universo não seja aquele que observamos e analisamos, ou pelo menos que não
seja só isso.
Outra
teoria, outros encadeamentos matemáticos e outras experiências de verificação,
numa outra versão do universo, arrastar-nos-iam sem dúvida para territórios
semeados de armadilhas, onde nos perderíamos. cada pensamento cria a sua
própria prisão, de onde se evade pelos seus próprios meios. Ou julga evadir-se.
Pois cavamos os nossos túneis de evasão e, ao mesmo tempo, avisamos os guardas.
A mesma voz que faz as perguntas dá as respostas. Nem as especulações
religiosas, bloqueadas desde a partida pelo dogma, nem as aventuras filosóficas
temerárias, nem o virtuosismo extremo (aos nossos olhos) das verificações
técnicas, nem as nossas escapadelas fantasmagóricas, ultrapassam o humano. E
com razão. As nossas provas só têm valor para nós. Provavelmente, não interessam
a mais ninguém, salvo como curiosidades locais. O nosso sistema sensorial, o
nosso pensamento lógico e a nossa imaginação exercitada, não conseguem sair do
nosso círculo.
Jean-Claude
Carrière, Entrevista a Einstein. Quetzal, págs. 103, 167 e 168.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Memória de Charles Darwin
É uma das formas possíveis de compreender
o Homem, a Vida e o Universo. Não é definitiva, mas tem em si possibilidades
significativas. Desde os Gregos que o Homem procura compreender a sua natureza,
mas também o que o envolve, o meio natural, através de equações que possam ser
sistematizadas pela razão.
Entre os criadores e pensadores de
diferentes tempos que contribuíram para o alargamento da Ciência, um tem
especial destaque, Charles Darwin. As ideias de Darwin abriram campos novos na
ciência. Da Biologia, à Medicina e à Antropologia ele fez avançar a Ciência,
que mais não é que a procura racional de compreender o mundo e os seus
fenómenos.
O campo científico contemporâneo é-lhe
devedor na formulação do seu próprio pensamento. Um video que nos lembra a
importância das suas ideias quando olhamos o universo e a natureza humana.
Lembramos a sua teoria da evolução, no dia do seu nascimento.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Memória, cultura e cidadania - Aristides - Memórias do Holocausto
Na homenagem às vítimas do
Holocausto merece referência um homem muito especial, Aristides de Sousa
Mendes. Lembremo-lo como um homem imenso que também participou naquilo que foi
a caminhada dos justos. Aristides é um exemplo a diversos níveis. Conhecer a
sua vida, o enquadramento social, económico e cultural de outras figuras do
País cinzento dos anos trinta e quarenta dá-nos uma real dimensão do seu valor.
Aristides foi um homem que ensinou
ao mundo e a este País como a nossa única obrigação é com a nossa consciência.
Ignorado nos livros de História durante décadas deu-nos a honra de vincular
este País a um verdadeiro heroísmo, o de contribuir para a civilização
contemporânea de um modo construtivo, mas acima de tudo empenhado com a sua
tradição humanista.
Um homem generoso, cristão de
formação, diplomata de profissão salvou milhares de vidas, arriscou na sua
consciência a sua própria família ensinando-nos o valor da partilha e da luta
por uma convicção. Salvou um grande número de judeus pelos vistos que lhe foi
consecutivamente atribuindo, de modo a que fosse possível salvar a vida de
pessoas que apenas queriam existir.
Um homem que revelou nas
dificuldades que sofreu, nas humilhações recebidas, mas essencialmente na luta
abnegada pelo amor à vida a imensa, a infinita mediocridade dos caminhos
estreitos e sem brilho que Salazar outorgava a um país, triste e sem grandeza.
Chamou-se Aristides de Sousa Mendes.
O livro em cima, dá-nos uma ideia do valor da solidariedade e do papel da
consciência do consul de Bordéus. Num País
em que é significativo a falta de figuras e instituições capazes de
honrar a memória do País, ele é também para nós alguém que superou a memória do
Holocausto. A história construída apenas para existir, sem grandeza é uma das
limitações do presente e é com figuras inspiradoras que podemos voltar a ousar
sobre a injustiça. É esse o grande exemplo de Aristides de Sousa Mendes.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Lembrança de Cecília Meireles
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles, «Canção», in Da Viagem (1939)
Imagem, in folhademinasgerais.blogspot.com
domingo, 30 de novembro de 2014
"Sê todo em cada coisa. Põe
quanto és no mínimo que fazes« (1)
O apelido de Pessoa remete-nos para o
teatro grego, as máscaras com que cada um enfrentava as dificuldades, os
desastres a que não cediam de ultrapassar. Pessoa transporta-nos para essa
noção de diversidade, de multiplicidade do individual. O poeta de que aqui
falamos e que hoje se evoca o seu desaparecimento físico, há justamente setenta
e nove anos, é uma figura marcante da cultura europeia e mundial. Representa a
procura para num mundo coletivo, exprimir a voz do indivíduo, do seu olhar e
das suas possibilidades.
Pessoa foi influenciado por um
conjunto de circunstâncias, as suas, as do seu tempo, que lhe criou um ambiente
histórico onde já se determinavam as dificuldades do Portugal Contemporâneo. A
saber, O Ultimatum inglês, a decadência da monarquia, as dificuldades de
afirmação da República, a instabilidade política e social, os acontecimentos
trágicos à volta de Sidónio Pais. A confirmação de um regime onde a dignidade
do ser não existia assegurou-lhe um Portugal cinzento, sem visão, nem
futuro. Pessoa soube criar uma poética que respondia à multiplicidade
individual, oferendo-nos a dimensão moderna, universal do homem como medida de
realização de um todo. Afinal o que pode ser a vida?
Neste caminho em contínua aprendizagem que dimensão nos pode transportar para uma felicidade mais próxima da respiração de cada um? Um trajeto em que apenas o visível pelos sentidos se pode apreender, acima de qualquer ideia moral, como em Alberto Caeiro, ou o modernismo tecnológico do mundo de Álvaro Campos, ou os constantes valores culturais da memória de Ricardo Reis? Afinal não são os heterónimos diferentes possibilidades de olhar para a afirmação do género humano nessa aventura que é viver?
Em todo este complexo modo de ser,
Pessoa afirmou-nos que é pela força das ideias que o País poderá ter a sua
única possibilidade de se afirmar no mundo desenvolvido. A Mensagem, mais do
que um relato de feitos do passado transporta-nos para essa ideia de um Quinto
Império em que Portugal para ser autónomo, diferente, melhor, só o pode
concretizar se for autêntico, se souber assumir a sua verdadeira dimensão.
Pessoa afirmou-se modernista pela sua
tentativa de transformar o futuro do País pelas ideias, pela arte, pela
cultura, no sentido de cada indivíduo poder participar na construção de uma
comunidade. Quantos que governaram este País, inclusivé no presente, se
esqueceram deste simples princípio? Pessoa é
um criador universal, porque soube
criar as diversas possibilidades do indivíduo, a sua multiplicidade onde se
encontram inscritos, os valores humanos. Afinal o que poderemos ser em cada
dia, reconstruindo o futuro quotidianamente, é uma das suas grandes ideias.
Partindo de uma experiência individual, as suas palavras reforçam a nossa
humanidade, como valor universal.
Só os homens geniais conseguem acima da espuma dos dias, verificar o
movimento mais profundo e compreender como poderemos ser mais dignos como País,
nas palavras de Almada. Existir é pouco para uma dimensão mais consciente da
vida. A genialidade de Pessoa é essa. A de revelar a necessidade de quebrar a
incerteza que reina nestas praias em sucessivas gerações. Mariano Deida
afirmou, há alguns anos, que o poeta de Autopsicografia inventou a própria
literatura, no sentido não de ter criado palavras novas, mas de nos revelar
dimensões novas do sentir/sentido humano.
O autor de Guardador de Rebanhos ou de Mensagem ou de Tabacaria é o maior dos nossos poetas, o filósofo das partidas esquecidas e dos sonhos de conquista do infinito universo. Chamou-se Pessoa, Fernando Pessoa, andou por aqui durante os milénios dos seus sonhos e faz hoje setenta e nove anos que adormeceu. Continua a interrogar o real tão feito de aparentes compromissos de verdade e imaginação.
O autor de Guardador de Rebanhos ou de Mensagem ou de Tabacaria é o maior dos nossos poetas, o filósofo das partidas esquecidas e dos sonhos de conquista do infinito universo. Chamou-se Pessoa, Fernando Pessoa, andou por aqui durante os milénios dos seus sonhos e faz hoje setenta e nove anos que adormeceu. Continua a interrogar o real tão feito de aparentes compromissos de verdade e imaginação.
(1) Ricardo Reis, Odes
Imagem, in f.Pessoa.com
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Columbano Bordalo Pinheiro
(Columbano Bordalo
Pinheiro - O grupo do Leão)
Um dos quadros de um dos
mais importantes pintores portugueses, exposto no Museu do Chiado e que expõe
um dos encontros de artistas e amigos que se reuniam na cervejaria Leão, em
Lisboa. Funcionava como espaço de convívio e de tertúlia, com Silva Porto,
expoente da pintura contemporânea e que em Lisboa contribuiu para um ambiente
de tertúlia pouco comum na capital, e que se animou muito, sobretudo após o
regresso daquele de Paris. Enquadra-se no período do realismo, já na fase de
abandono das projecções românticas e com a preocupação de revelar o olhar mais
cru do artista
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Memória das palavras de Cecília Meireles
Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de noite fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.
Repara a canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.
Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.
que timidamente se eleva,
num arrulho de noite fria.
O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.
Repara a canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.
Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.
E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.
(No nascimento de Cecília Meireles, uma das poetas mais importantes da língua portuguesa do século XX, que nos deu poemas de procura da simplicidade, entre os elementos mais característicos da natureza humana, a nossa transitoriedade, nesse jogo difícil entre o efémero e o eterno).
Cecília Meireles, «Serenata», in Da Viagem (1939)
Imagem, in folhademinasgerais.blogspot.com
Um escritor no mês - Albert Camus
"Bem
pobres são aqueles que precisam de mitos. Descrevo e digo: 'isto é vermelho,
azul, verde. Isto é o mar, as montanhas, as flores.' Tenho eu necessidade de
falar de Dionísio para dizer que gosto de esmagar bolas de lentiscos debaixo do
meu nariz?" (1)
Há
um pouco mais de cem anos nascia um dos grandes (a palavra é pobre para o
exprimir) pensadores sobre a condição humana. Foi identificado como um dos que
pertenceu a um século onde alguns homens pensavam a sociedade ou para indicar
possibilidades ou para forjar caminhos alternativos, os chamados intelectuais.
A palavra não lhe faz completa justiça, pois ele foi sobretudo uma voz moral,
acima da pequena política, das intrigas de palácio, onde soube falar sobre a
natureza humana e dar-nos esse ânimo na voz que caminha entre a desistência
mais passiva e o não afirmativo, comprometido, solidário por uma causa. A sua
causa foi a da democracia da beleza, conceito, nobre à procura de uma
revolução, sim a a da vida, como ele também expressou.
Filho
de outro continente, das geografias humanas colonizadas, dessa mistura de povos
e culturas, filho nas margens da sociedade, cultivou a resistência e o estudo
como a verdadeira porta para se ser livre. É assim filho dessa ideia, que a
França cultivou de que uma educação republicana, poderia fazer nascer um País
desenvolvido. E escreveu sobre nós, as nossas ambições, a fragilidade humana na
efemeridade do tempo e os valores morais que devemos vestir em qualquer
contexto. Tony Judt chamou-lhe o 'Melhor homem de França' e esta sente-lhe a
falta, desde que se tornou passivamente indiferente à contemporaneidade.
Escreveu
O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, Os discursos da Suécia, A morte feliz
e O primeiro homem. Foi Prémio Nobel da Literatura em 1957 e é das poucas vozes
coerentes do século XX onde podemos ainda ver o caos e a angústia dos tempos
modernos como uma forma de expressão da humanidade, da nossa natureza.
Compreendeu os limites das tiranias do século XX, antes de algumas das suas
vozes mais sonantes e devemos-lhe isso, essa coerência pelo que somos. Caminhou
sozinho, com a voz interior de um oráculo que se quer descobrir a si nos
outros.
Essa
felicidade que procurou, que procuramos, entre múltiplas imagens, na procura da
memória mais bela a fundir no sonho, entre o universo visível que nos é dado a
ver e a nossa experiência humana. Chama-se Albert Camus e nasceu há muitas
décadas para que o visitemos nestes tempos obscuros que exigem um conhecimento
de um homem essencial do século XX, de múltiplos séculos, nessa luta essencial
entre o absurdo e a revolta, para a construção do possível humano.
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