quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dia mundial da música


"E há sempre sonhos
sonhos doces, tão mágicos, tão desejáveis
mas tão longe do que somos e temos.

Há sempre outros
sempre esses outros que nos avaliam
que nos fazem corar, sorrir, amar, chorar.

E há sempre nós...
nós bonitos, nós feios,
nós sozinhos, nós amados...

Quem me dera que houvesse
sempre uma imagem de nós nos
sonhos dos outros!"
Bernardo Sassetti escreveu estas palavras e estes sons a pensar na Rita. Nós, mesmo no efémero movimento dos dias pensamos nele, muito por essa busca de perfeição de escutar o silêncio com que construímos os sonhos que nos movem. 


Neste Dia Mundial da Música podíamos relembrar diferentes figuras, que preenchem a memória coletiva da Humanidade, pelo que fizeram sentir, pelo que permitiram transformar, pelos horizontes que reescreveram. Optamos por um amigo. Sassetti dá-nos em tonalidades de silêncio, os fios de olhar capazes de reconstruir os sonhos, em encontros de gestos cuidados.

Na sua inquietude criativa concede-nos momentos de encanto, de descoberta dos elementos que pelo silêncio se descobrem em cada anunciada manhã. Com os seus pianos descobrimos os sonhos, onde tentámos que também alguém nos espelhasse o que mais admiramos e buscamos nestes breves momentos. Neste Dia Mundial da Música, nas inexperientes palavras, deixamos os elementos do seu génio, que tanto nos enriqueceu.  


António, é um artesão das palavras, respira com elas num assombro que nos transmite as condições mais nobres e desoladas da natureza humana. António não escreve histórias. Usa as palavras para respirar os objectos do quotidiano, os gestos que nos deslumbram entre o olhar mais doce e a solidão das horas gastas.

António Lobo Antunes tem-nos dado em múltiplos livros o trabalho artesanal do escritor que do mundo, da humanidade se reconstrói em cada coração para chegar a olhares mais particulares, à sombra "das árvores nas janelas". António escreve livros com fios, por onde as nossas células adivinham caminhos e formas nos próprios passos. Com as suas palavras, as suas notas, reformula os significados das emoções que por entre as cotovias do bosque nos parecem tão pouco expressivas para a raridade, a memória de tempos ali vividos.

António escreve usando a emoção nas palavras, para encontrar nos gestos trabalhados, a conquista breve dos dias. António é um poeta não das palavras, mas do real por onde conquista as sombras e ausências, os significados, os instantes do que significa viver, existir e morrer. António Lobo Antunes nasceu com essa ambição de ser um escritor, para nos dar o ritmo das paisagens respiradas, onde tece as palavras que nos fazem olhar para o interior do que somos. Formou-se em Medicina, especializou-se em psiquiatria, mas descobriu que a a sua maior identidade são os livros.

Daqueles, poderemos destacar os Livros de Crónicas (com destaque obrigatório para o quatro e o cinco), Memórias de elefante (1979), Explicação dos pássaros (1981), O Regresso das caravelas (1988), O Manual dos inquisidores (1996), Exortação aos crocodilos (1999), Não entres tão depressa nessa noite escura (2000), Ontem não te vi em Babilónia (2008) e Sóbolos rios que vão (2010).

A sua obra tem recebido diferentes prémios. Destaque para a France Culture (1996), Donoso (2006), Camões (2007) e Clube Literário do Porto (2008). Em 2012 foi o escritor em destaque na Escritaria, festival literário e cultural da cidade Penafiel. É um dos nomes universais da língua portuguesa e sem dúvida um autor amplamente merecedor de um Nobel na Literatura, embora isso seja pouco relevante. O que nos tem dito e explicado das nossas sombras e alegrias e a sua exposição mundial fazem dele uma das referências culturais em língua portuguesa.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Celebrar o Outono


 "Lá vem o meu pobre Outono
que em troca daquela beleza
de vestir folhas douradas,
um vermelho sem igual
e um castanho especial,
sente a obrigação de abrir
a porta ao vento e à chuva ...

que nesta estação já perderam
a vontade de brincar
e lembram a toda a gente
que é tempo de trabalhar.
Ao Outono resta ainda
a bela consolação
de comer frutos de Verão".

Outono, João Pedro Mésseder, in O Livro dos Meses

Imagem (via http://havidaemmarta.blogspot.com)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

As Bibliotecas


"A Biblioteca terá que ser o centro da sociedade. O homem é um animal leitor, leitor do mundo. Procuramos as constelações da narração: quem são os outros e onde estamos. Desenvolvemos o poder da imaginação. Somos capazes de criar o mundo, antes mesmo da criação do mundo.

As bibliotecas são a memória privada e a memória pública. A biblioteca é autobiografia de cada um.É o rosto de cada um de nós. As bibliotecas são também a biografia da sociedade, a sua identidade. As bibliotecas públicas são o rosto da comunidade.

Nós somos o que a biblioteca nos recorda o que somos. Um livro conta a experiência de cada um, onde estão as paixões mais secretas e os desejos mais íntimos. "Clínica da alma" é a sua melhor definição. A centralidade da atividade inteletual está na clínica da alma!"...


terça-feira, 1 de julho de 2014

As Bibliotecas

"A Biblioteca terá que ser o centro da sociedade. O homem é um animal leitor, leitor do mundo. Procuramos as constelações da narração: quem são os outros e onde estamos. Desenvolvemos o poder da imaginação. Somos capazes de criar o mundo, antes mesmo da criação do mundo.

As bibliotecas são a memória privada e a memória pública. A biblioteca é autobiografia de cada um. É o rosto de cada um de nós. As bibliotecas são também a biografia da sociedade, a sua identidade. As bibliotecas públicas são o rosto da comunidade.

Nós somos o que a biblioteca nos recorda o que somos. Um livro conta a experiência de cada um, onde estão as paixões mais secretas e os desejos mais íntimos. "Clínica da alma" é a sua melhor definição. A centralidade da atividade inteletual está na clíca da alma!"...

Alberto Manguel, "Reading and Libraries", 11º Congresso da BAD
 (No dia mundial das Bibliotecas)
 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os livros ... ou a reescrita da voz


 Os livros são um dos objectos primordiais do que podemos chamar uma civilização. Com eles guardamos a memória e as inquietações anteriores a nós, mas também como eles descobrimos que eles nos fazem pensar melhor, afinal que podemos evoluir como pessoas, como sociedade. Apesar dos múltiplos ecráns estamos muito sós, nas palavras que queremos dizer, na voz que não se ouve sob um domínio, um ruído dominante de media e de um poder formatado para os lugares comuns, para os atributos dos privilégios.

É na leitura que nos descobrimos, que verificamos que valores nos conduzem, que formas de encontro conseguimos estabelecer com os outros. Os livros que lemos dizem muito das pessoas que conseguimos ser, dos conhecimentos que multiplicamos nas ideias que apreendemose da percepção que temos do mundo e de nós próprios. 

Os livros são muito diversos, pois constrõem continentes de emoções, geografias de sentimentos, formas de ser,modos de pensar e de construir o mundo e são por isso um património de um profundo enriquecimento pessoal. Com eles fazemos viagens ligando o passado e o presente, numa ideia de algo a construir, a sonhar, embora nunca lá estejamos, esse futuro por viver. São por isso os caminhantes de ideias e lugares, por onde passámos e onde eles chegarão. Com eles vivemos a possível eternidade. 

Os livros emergem com as palavras e ao nomeá-las, estamos a dar-lhes a substância de existirem, mesmo que se refiram ao que não temos, mesmo que sejam os sonhos antes dos sonhos, a respiração de ver o que se ama. Os livros e a leitura confirmam essa possibilidade maior de aceitarmos em partilha as vozes que nos chamam para o reconhecimento múltiplo da humanidade.  

quinta-feira, 8 de maio de 2014

As Bibliotecas

"As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem  está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros. Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha. Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. 

Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se  entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê. O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê. Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas. Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo.

Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam. As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé. 

Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se. 

As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas. Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. 

Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Lêem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. 

Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes. 

Este texto é um abraço especial à biblioteca da escola Frei João, de Vila do Conde, e à biblioteca do Centro Escolar de Barqueiros, concelho de Barcelos. As pessoas que ali leem livros saberão porquê. Não deixa também de ser um abraço a todas as demais bibliotecas e bibliotecários, na esperança de que nada nos convença de que a ignorância ou o fim da fantasia e do sonho são o melhor para nós e para os nossos. Ler é esperar por melhor". 

Valter Hugo Mãe, "As Bibliotecas", In Jornal de Letras, Maio de 2013
Imagem, O orfanato Safe Haven, Ban Tha Song Yang, Tailândia