sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Memória de António Ramos Rosa


A PALAVRA, A FÁBULA, O MUNDO

Escrevo para entrever o que seria o mundo
liberto de si mesmo e sem imaginar
pouso no limite entre a luz e a sombra
para me oferecer à nudez de um começo

Há palavras que esperam na sombra contra o muro
para serem a felicidade de uma folha aberta
sem mais sentido que o perpassar da brisa
mas que abrem o mundo e de doçura tremem

Não é preciso polir a madeira das palavras
ou talhá-las como se fossem seixos
Há um lugar para elas no branco e não numa alfombra de
ouro
e quanto mais frágeis mais frescura exalam
porque elas são a fábula do mundo quando a água o embala.

António Ramos Rosa. (2001). Antologia Poética. Alfragide: D. Quixote.
Imagem, lleana Bosogea-Tudor (Via http://1x.com/)


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

No nascimento de Agustina

«Os meus livros são, afinal, ou só isso, a oportunidade de milhões de almas, únicas todas elas, almas de sapinhos cheios de importância de viver. [...] Uns partem um pouco depois de dizerem bom dia, outros ficam até morrer. Todos se continuam naquilo que têm de profundamente entre si – a vocação para serem sós, porém aceites por cada um dos outros. Porque a solidão que me acusam de impor aos meus personagens, como uma grilheta, é apenas a sua individualidade biológica, a exclusividade, a reivindicação superior da sua própria luta. Um homem jamais corresponde a outro homem; as suas reacções e conclusões não equivalem a vivência de outra alma, a experiência doutro eu. O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única.» (1)

Retemos dela uma ideia de uma luz de quem caminhou ao contrário, da maturidade para a infância, de quem nos ensinou que a vida é demasiado importante para ser levada a sério e que por isso nada mais difícil do que o gesto grave, a dureza do caminho, para os que procuram um lugar de felicidade, de conquista de individualidade. Por isso as fórmulas rápidas e fáceis são inexpressivas de qualquer verdade, pois em cada ser há uma respiração diferente.

Nas suas obras, as mulheres de diferentes gerações revelam essa aspiração de humanidade, que condensam o que viveram, o que sonharam, em luta com o real sem se saber se se ousou o suficiente, se a afirmação foi suficiente para chegar a esse momento quase final em algo que se compreendeu.

É uma das grandes figuras da cultura portuguesa deste século. Pela escrita, pelos temas, pelo humor e por aquele sorriso de quem já parece ter percebido o sentido das coisas e por isso sorri para o horizonte, como a criança acabada de nascer. 

Chama-se Agustina Bessa-Luís e faz hoje noventa e dois anos. Deixamos um excerto do final desse grande livro, Sibila:
«É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.» (2)

(1);(2) - Agustina Bessa-Luís, in Revista "Lusíada", Porto, Outubro - 1955; Sibila

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O diálogo das palavras


"Se queremos escrever livros a sério temos que aspirar ao silêncio e encher os livros de silêncio. O leitor lê as palavras que não estão lá escritas e no entanto estão lá. O que os livros tratam todos é de uma paisagem interior. E é por isso muito difícil falar deles. É sempre a mesma busca.

Primeiro a angústia do homem no tempo e depois uma procura de si, da natureza do homem. Penso que os livros são todos isto. Muitas vezes não é um trabalho de elaboração prévio à escrita. É a própria escrita que vai moldando a estrutura do livro. O livro é feito de palavras. São as palavras que vão moldando. E só assim podem carregar com elas as emoções. E os grandes livros são são serão livros doentes? 

Este livro é triste. É idiota dizer isto, porque quando a mão é feliz, o livro é uma alegria para o leitor. Ou quando falam em intriga. Não há intrigas. As pessoas dizem vou contar uma história. Não vão contar história nenhuma. Os romances maus contam histórias. Os romances bons mostram-nos a nós mesmos. Talvez seja isso. Um mau romance é aquele que conta uma história.

Escrever é uma coisa muito difícil. O ideal é que o livro fosse encontrar um deserto com vozes. Reduzir as coisas à pedra de que somos feitos. D. Manuel José de Melo (autor do século XVII) dizia "o livro trata do que vai escrito nele". É isso. É o livro que manda, não é o autor. 

Temos perguntas, mas não temos respostas. E quando soubermos as respostas, Deus muda as perguntas. A nossa vida é uma pergunta perpétua. Os livros são perguntas que trazem respostas, muitas vezes às perguntas que não fizemos. Goethe dizia que "o não chegar é que faz a nossa grandeza". E como escritor de livros é isso que sou: um principiante". 

Jornal das Nove, SIC Notícias, 2012
Imagens  Copyright
 Good book by Julianna Collet Photography
Escritaria 2012 - Homenagem a António Lobo Antunes (Napoleão Monteiro)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ler torna o mundo melhor


Ler torna o mundo melhor. Como, não sei. Ou seja, sei: de várias formas e cada um encontra a sua. É essa uma das graças dos livros, eles são uma mistura de religião e pequena banditagem. Tal como os bandidos nos filmes, os livros pegam em dois fios e, sem precisar de chave, ligam o carro. Quando são bonzitos, religam o leitor ao cosmos. Quando são mesmo bons, baralham e dão de novo. Um poema pode devolver-nos o sentido da vida. Já um romance é capaz de algo ainda mais importante, como ensinar-nos a namorar melhor.

Os livros são como as pessoas, só que em melhorzinho. Ninguém é fantástico vinte e quatro horas por dia. Autores banais fizeram livros extraordinários, porque no livro deram o litro. Imaginem o que seria a nossa vida só com os grandes momentos, tipo clip dos golos. Um livro é isso, uma sopa à qual basta juntar água e levar ao lume, ou seja, ao leitor. O livro está frio, desidratado, até que um leitor lhe pegue. Aí dá-se a faísca. Mas há um cuidado a ter.

Os livros são como o tango, dançados mano a mano. Se mil pessoas começam ao mesmo tempo a ler o mesmo livro, ao fim de poucos minutos já ninguém está sequer na mesma linha. Ao contrário do cinema e da televisão, o livro segue o tempo do leitor. É uma dança a dois, silenciosa como as melhores danças. Apesar de já estar escrito, impresso no papel, o livro só dança se o leitor quiser. O livro dá a melodia, o ritmo marca quem lê.

Os livros entram na nossa cabeça, porque é esse o poder da palavra escrita. Com uma originalidade: só entram na nossa cabeça se o leitor agir. Olhar todos olhamos. Ver implica estarmos atentos. E ler? Ler é olhar com intenção a dobrar: dos olhos e do espírito. Não fomos nós que criámos as árvores e o céu, mas fomos nós que inventámos a escrita: umas garatujas esquisitas que, juntas, formam coisas e ideias e sabores.

Sermos leitores não nos salva de nada. Infelizmente, quando fecharmos o livro a maior parte das vezes voltamos a ser quem éramos. A redenção durou pouco. Mas, enquanto estamos a ler, ah, nesse entretanto (nesse ler) podemos ser grandes! E a boa notícia é que há sempre outro livro por abrir.
Os livros dizem sempre a verdade, mesmo quando mentem. Cá está, uma vez mais: como as pessoas. Não, não estou a dizer que os livros são melhores que as pessoas. Apenas que os livros são as pessoas - autores e leitores no seu melhor.


Rui Zink, "Ler torna o mundo melhor", in Revista Estante (Número de Verão), pág. 6

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dia mundial da música


"E há sempre sonhos
sonhos doces, tão mágicos, tão desejáveis
mas tão longe do que somos e temos.

Há sempre outros
sempre esses outros que nos avaliam
que nos fazem corar, sorrir, amar, chorar.

E há sempre nós...
nós bonitos, nós feios,
nós sozinhos, nós amados...

Quem me dera que houvesse
sempre uma imagem de nós nos
sonhos dos outros!"
Bernardo Sassetti escreveu estas palavras e estes sons a pensar na Rita. Nós, mesmo no efémero movimento dos dias pensamos nele, muito por essa busca de perfeição de escutar o silêncio com que construímos os sonhos que nos movem. 


Neste Dia Mundial da Música podíamos relembrar diferentes figuras, que preenchem a memória coletiva da Humanidade, pelo que fizeram sentir, pelo que permitiram transformar, pelos horizontes que reescreveram. Optamos por um amigo. Sassetti dá-nos em tonalidades de silêncio, os fios de olhar capazes de reconstruir os sonhos, em encontros de gestos cuidados.

Na sua inquietude criativa concede-nos momentos de encanto, de descoberta dos elementos que pelo silêncio se descobrem em cada anunciada manhã. Com os seus pianos descobrimos os sonhos, onde tentámos que também alguém nos espelhasse o que mais admiramos e buscamos nestes breves momentos. Neste Dia Mundial da Música, nas inexperientes palavras, deixamos os elementos do seu génio, que tanto nos enriqueceu.  


António, é um artesão das palavras, respira com elas num assombro que nos transmite as condições mais nobres e desoladas da natureza humana. António não escreve histórias. Usa as palavras para respirar os objectos do quotidiano, os gestos que nos deslumbram entre o olhar mais doce e a solidão das horas gastas.

António Lobo Antunes tem-nos dado em múltiplos livros o trabalho artesanal do escritor que do mundo, da humanidade se reconstrói em cada coração para chegar a olhares mais particulares, à sombra "das árvores nas janelas". António escreve livros com fios, por onde as nossas células adivinham caminhos e formas nos próprios passos. Com as suas palavras, as suas notas, reformula os significados das emoções que por entre as cotovias do bosque nos parecem tão pouco expressivas para a raridade, a memória de tempos ali vividos.

António escreve usando a emoção nas palavras, para encontrar nos gestos trabalhados, a conquista breve dos dias. António é um poeta não das palavras, mas do real por onde conquista as sombras e ausências, os significados, os instantes do que significa viver, existir e morrer. António Lobo Antunes nasceu com essa ambição de ser um escritor, para nos dar o ritmo das paisagens respiradas, onde tece as palavras que nos fazem olhar para o interior do que somos. Formou-se em Medicina, especializou-se em psiquiatria, mas descobriu que a a sua maior identidade são os livros.

Daqueles, poderemos destacar os Livros de Crónicas (com destaque obrigatório para o quatro e o cinco), Memórias de elefante (1979), Explicação dos pássaros (1981), O Regresso das caravelas (1988), O Manual dos inquisidores (1996), Exortação aos crocodilos (1999), Não entres tão depressa nessa noite escura (2000), Ontem não te vi em Babilónia (2008) e Sóbolos rios que vão (2010).

A sua obra tem recebido diferentes prémios. Destaque para a France Culture (1996), Donoso (2006), Camões (2007) e Clube Literário do Porto (2008). Em 2012 foi o escritor em destaque na Escritaria, festival literário e cultural da cidade Penafiel. É um dos nomes universais da língua portuguesa e sem dúvida um autor amplamente merecedor de um Nobel na Literatura, embora isso seja pouco relevante. O que nos tem dito e explicado das nossas sombras e alegrias e a sua exposição mundial fazem dele uma das referências culturais em língua portuguesa.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Celebrar o Outono


 "Lá vem o meu pobre Outono
que em troca daquela beleza
de vestir folhas douradas,
um vermelho sem igual
e um castanho especial,
sente a obrigação de abrir
a porta ao vento e à chuva ...

que nesta estação já perderam
a vontade de brincar
e lembram a toda a gente
que é tempo de trabalhar.
Ao Outono resta ainda
a bela consolação
de comer frutos de Verão".

Outono, João Pedro Mésseder, in O Livro dos Meses

Imagem (via http://havidaemmarta.blogspot.com)