sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Columbano Bordalo Pinheiro

(Columbano Bordalo Pinheiro - O grupo do Leão)

Um dos quadros de um dos mais importantes pintores portugueses, exposto no Museu do Chiado e que expõe um dos encontros de artistas e amigos que se reuniam na cervejaria Leão, em Lisboa. Funcionava como espaço de convívio e de tertúlia, com Silva Porto, expoente da pintura contemporânea e que em Lisboa contribuiu para um ambiente de tertúlia pouco comum na capital, e que se animou muito, sobretudo após o regresso daquele de Paris. Enquadra-se no período do realismo, já na fase de abandono das projecções românticas e com a preocupação de revelar o olhar mais cru do artista

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Memória das palavras de Cecília Meireles


Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de noite fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara a canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.

Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura

por eternidades serenas.

(No nascimento de Cecília Meireles, uma das poetas mais importantes da língua portuguesa do século XX, que nos deu poemas de procura da simplicidade, entre os elementos mais característicos da natureza humana, a nossa transitoriedade, nesse jogo difícil entre o efémero e o eterno). 

Cecília Meireles, «Serenata», in Da Viagem (1939)
Imagem, in folhademinasgerais.blogspot.com


Um escritor no mês - Albert Camus


"Bem pobres são aqueles que precisam de mitos. Descrevo e digo: 'isto é vermelho, azul, verde. Isto é o mar, as montanhas, as flores.' Tenho eu necessidade de falar de Dionísio para dizer que gosto de esmagar bolas de lentiscos debaixo do meu nariz?"  (1)

Há um pouco mais de cem anos nascia um dos grandes (a palavra é pobre para o exprimir) pensadores sobre a condição humana. Foi identificado como um dos que pertenceu a um século onde alguns homens pensavam a sociedade ou para indicar possibilidades ou para forjar caminhos alternativos, os chamados intelectuais. A palavra não lhe faz completa justiça, pois ele foi sobretudo uma voz moral, acima da pequena política, das intrigas de palácio, onde soube falar sobre a natureza humana e dar-nos esse ânimo na voz que caminha entre a desistência mais passiva e o não afirmativo, comprometido, solidário por uma causa. A sua causa foi a da democracia da beleza, conceito, nobre à procura de uma revolução, sim a a da vida, como ele também expressou.

Filho de outro continente, das geografias humanas colonizadas, dessa mistura de povos e culturas, filho nas margens da sociedade, cultivou a resistência e o estudo como a verdadeira porta para se ser livre. É assim filho dessa ideia, que a França cultivou de que uma educação republicana, poderia fazer nascer um País desenvolvido. E escreveu sobre nós, as nossas ambições, a fragilidade humana na efemeridade do tempo e os valores morais que devemos vestir em qualquer contexto. Tony Judt chamou-lhe o 'Melhor homem de França' e esta sente-lhe a falta, desde que se tornou passivamente indiferente à contemporaneidade.

Escreveu O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, Os discursos da Suécia, A morte feliz e O primeiro homem. Foi Prémio Nobel da Literatura em 1957 e é das poucas vozes coerentes do século XX onde podemos ainda ver o caos e a angústia dos tempos modernos como uma forma de expressão da humanidade, da nossa natureza. Compreendeu os limites das tiranias do século XX, antes de algumas das suas vozes mais sonantes e devemos-lhe isso, essa coerência pelo que somos. Caminhou sozinho, com a voz interior de um oráculo que se quer descobrir a si nos outros.

Essa felicidade que procurou, que procuramos, entre múltiplas imagens, na procura da memória mais bela a fundir no sonho, entre o universo visível que nos é dado a ver e a nossa experiência humana. Chama-se Albert Camus e nasceu há muitas décadas para que o visitemos nestes tempos obscuros que exigem um conhecimento de um homem essencial do século XX, de múltiplos séculos, nessa luta essencial entre o absurdo e a revolta, para a construção do possível humano.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014


O século XX, os seus acontecimentos e formas marcaram com extrema violência a vida de milhões de pessoas. A História do século XX não pode ser compreendida sem a Arte, e as formas que ela assumiu. O século passado inaugurou de forma massiva a comunicação como meio de exprimir uma ideia. A pintura deixou de depender da noção clássica dos renascentistas da noção de perspetiva, assim como deixou de representar uma figura ou um quadro natural. O quadro tornou-se a própria realidade.

Neste sentido a arte em geral e a pintura em concreto poderiam dar a conhecer uma ideia de realidade, uma proposta de sociedade, indicando uma visão do mundo. A perspetiva aparecia como um ponto de observação, dando-nos uma ideia, um quadro, uma descrição do real. Ora, a História do Século XX, pelas suas contradições e angústias mereciam que a perspectiva fosse fragmantada, dividida em secções, como a própria realidade.

A arte e a pintura, em particular deveriam mostrar, revelar a natureza humana nos seus aspetos mais visíveis. O feio, a violência, a realidade sofrida por cidadãos em tão variados locais por onde a Guerra fez as suas vítimas. A vida moderna deveria ser expressa na sua angústia, limitações e estado de caos. A arte deveria apresentar o mundo, já distante nas formas sociais e culturais do século anterior. A este movimento iniciado em 1908 por Georges Braque e Picasso deu-se o nome de cubismo.

Foi com Picasso que a ideia da fragmentação da imagem foi levada mais longe. O nome de cubismo vem-lhe da utilização de pirâmides, cubos, cones que utilizava na diferente perspetiva dos objetos. A utilização de máscaras africanas e a utilização das suas cores vivas fez dele um artista muito importante na Arte Europeia e Mundial. Não é excessivo dizer que Picasso é um dos marcos da Arte Ocidental.

Há justamente cento e vinte e cinco anos, que nascia um dos criadores do cubismo e que deu à arte e à pintura uma ideia nova e transformadora da representação da realidade e da vida. O Museu Picasso em Barcelona disponibiliza um conjunto de recursos on-line interessantes. Vale a pena consultar. Aqui.


O mês de outubro é escolhido há já vários anos pela ISAL, (International Association of School Librarianship) como o mês das Bibliotecas Escolares. Em cada ano a IASL escolhe um tema que procura agregar temáticas ou questões pertinentes para o universo das bibliotecas escolares. O Tema deste ano é, Biblioteca Escolar, um mapa de ideias, o que nos faz pensar sobre o que são e o que podem ser as Bibliotecas Escolares num contexto de mudança tecnológica, de imprevisibilidade económica e social e de dúvidas sobre os formatos que a educação pode assumir neste contexto.

As Bibliotecas Escolares representam ou devem representar uma centralidade na escola pela sua relação com o currículo e com a manipulação de conteúdos informacionais e de envolvimento das competências digitais. Num mundo de informação, o livro é ainda um objeto, um material de cultura e um património de memória. É importante redefinir o papel da Biblioteca num contexto de sociedade de informação. Neste sentido o que é um livro? O que nos permite ele concretizar no universo das ideias? 

A leitura é um imenso privilégio, pois significa que superámos as mais condições da utilidade dos dias, que já não vivemos num quotidiano de carências, de sobrevivência e de medo. A leitura permite ter acesso a um espaço de recolhimento, para desfrutar momentos de lazer e de conhecimento. O livro é o único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo.

O que faz a grandeza do livro é a sua essência, isto é, não a leitura em si, mas a criação das imagens que ela suscita. Podíamos dizer que a leitura vale pela sua literacia. O livro é um único suporte de leitura que se basta a si próprio, pelo que só depende do leitor, do seu tempo privado, ao contrário da televisão, ou do cinema. O livro chama-nos, carece do nosso entusiasmo.

Ler é assim, acima de tudo, o momento de construção de imagens, "o levantar a cabeça", imaginado essas imagens que a leitura trouxe. A leitura, a sua essência repousa na construção dessa reflexão, nesse tempo individual. A leitura isola o leitor, permite a imobilidade, instala o silêncio e concede-nos um processo de contra-movimento contra a cidade, o grupo, o barulho, o movimento, libertando-nos do tempo. Por isso a Biblioteca, como espaço de leitura assemelha-se a uma divindade, detentora de uma energia, como a de um templo.

A Biblioteca aprimora a concentração (cujo étimo do latim quer dizer, com um centro), promovendo o silêncio, a imobilidade e a individualização. Se a Biblioteca desistir desta sua  nobre função será outra coisa, que não um espaço acima do tempo e do espaço, onde os seus fantasmas nos falam dos temas eternos, o amor, a luz, a felicidade, a viagem, o outro.

 Deve assim a Biblioteca encaminhar os seus leitores ou utilizadores para um património literário e cultural que é a mais elevada forma de respeitarmos a nossa mortalidade. É a nossa graça, num tempo de cultivar as diferenças, mostrando estar disponível, ao tempo dos outros. É esta conciliação que torna difícil concretizar esta aspiração de juntar o livro à expressão de uma valor digital, de aprofundamento de técnicas de estudo. A Biblioteca Escolar deve procurar esta ligação, pois nela reside o fundamento e o significado da sua existência numa escola.


Um livro - livro de crónicas 4


Título: Quarto Livro de Crónicas
Autor: António Lobo Antunes
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: Dom Quixote
ISBN: 978-972-20451-00
CDU: 821.134.3-94"19/20"

Sinopse:
 "(...) levanta-te do papel com as palavras. Fecha os olhos e elas saem sozinhas. As palavras são notas, repara. Não penses em nada, abandona-te. O mundo inteiro está dentro de ti." (1)
Um livro de crónicas, o quarto em que o escritor de Sôbolos rios que vão ou de Ontem não te vi em Babilónia nos dá a intimidade do seu olhar sobre os objectos na respiração do quotidiano, dos gestos que nos encantam entre a solidão do que tantas vezes somos e do que admiramos no mais pequeno olhar. António oferece-nos com mais nitidez o trabalho artesanal do escritor que do mundo, da humanidade se reconstrói em cada coração para chegar aos olhares mais particulares, à sombra das árvores nas janelas.
Um livro como todos os seus livros entregue ao leitor, às células por onde caminha o fio do mundo e onde com as suas memórias redige as suas palavras, reformula os significados dessas notas que por entre as cotovias do bosque nos parecem tão pouco expressivas para a raridade do momento.

E a comoção que nós somos em tantos, aquelas palavras, aqueles gestos na conquista breve dos dias. António é um poeta não das palavras, mas do real por onde conquista nas sombras e ausências os significados universais do que significa viver, existir e morrer. 
(1)  António Lobo Antunes, "Já escrevi  isto amanhã", Quarto Livro de Crónicas


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Manuel António Pina - a lembrança de uma memória


"A beleza é o rosto mais jubiloso da verdade. Não da própria verdade, mas do seu rosto". (1)

Os dias são muitas vezes tão sucessivamente rápidos que muitas memórias nos escapam. O tempo torna-se reduzido para inscrever no íntimo tantas vozes que tentaram connosco dar aos dias uma cor própria, um sentido vivido de consistência e beleza. António Manuel Pina desapareceu fisicamente a dezanove de Outubro de dois mil e doze. É uma voz que vale a pena recuperar. Pela poesia, pelas crónicas, que nele eram uma arte de desmontar o essencial e pela prosa.
António Manuel Pina foi um homem que buscou nas palavras uma tentativa de fazer compreender a nossa natureza efémera. Foi daqueles que vindo das terras do Mondego, dos contrafortes da Estrela se fez e se encontrou na cidade do Porto, como forma de desenhar na natureza agreste das pedras, o seu caminho de combustão de sonhos, no veludo das encostas de granito.
António Manuel Pina tinha uma paixão pelo Winnie the Pooh. Olhava para a literatura infantil como a possibilidade de reencontrar o olhar inicial, o que está pronto para a linguagem do mundo, ainda sem o conhecer. Revelou uma curiosidade para traçar pela poesia as grandes questões filosóficas de sempre inerentes à natureza humana e descobriu na solidão a possibilidade de erguer sonhos.
Reflectiu sobre a sociedade em que viveu com liberdade, com inteligência e com criatividade. Deu-nos no JN um conjunto de crónicas sobre esse real que se sonha e que não se compreende pela ausência de uma real cidadania. Desse real, em que instituições e media, precariamente percebem o significado do velho ideal grego, "Libertas, Humanitas, Felicitas".
Foi um cronista que ousou utilizar as palavras para discutir "as verdades" que o establishent político gosta de enumerar como os pilares do universo, por onde interesses privados se alimentam da destruição mais básica dos valores de dignidade de tantos. Manuel António Pina foi um prosador e com as palavras procurou exercer a liberdade que nos falta, a que tem uma dimensão moral.
E foi um poeta. Um poeta que nos descreveu como nos orientamos com os mitos, como respiramos o real, entre os lugares e as suas sombras, por onde tentamos reconhecer os gestos. Nunca nos recompomos da partida dos poetas, pois o timbre da voz é irrecuperável, mesmo que a memória e as palavras queiram colaborar nessa luta à partida perdida, de guardar o sorriso no templo desse "dragão feroz" (2) que é o próprio tempo.
(1) Entrevista a Manuel António Pina, in Jornal i, 18/02/21012
(2) Ana Maria Matute, Paraíso Inabitado