terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - O desejo - As cidades invisíveis (IV)


Anastásia é uma cidade banhada por canais e por onde voam papagaios de papel. É uma cidade de mercadorias e mercadores, de sabores e fragâncias.

Em Anastásia sentimos o orégão, as cerejeiras em flor e vemos lindas mulheres banhando-se em piscinas rodeadas de jardins. Anástasia é uma cidade de desejos, onde todos eles nos inundam de uma só vez.

É por eles que vemos a cidade como um todo e só por eles que a podemos compreender. Mas Anastásia é uma cidade enganadora. Ela impõe aos seus habitantes um trabalho duro. É no encantamento da cidade que ela escraviza os seus habitantes, nas longas horas de trabalho que perfuma o desejo que brevemente alguns podem ter.

A partir da leitura de Italo Calvino. (2011). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: Collen Corradi

A palavra e o mundo - Viagens (I)


O senhor Nicolau e o senhor Mateus e Marco, filho do senhor Nicolau, caminharam tanto que chegaram junto do Grande Cã, numa cidade chamada Chemenfu, muito rica e grande. aquilo que encontraram no caminho não se conta agora, pelo que se contará mais tarde. Demoraram três anos a percorrê-lo devido ao mau tempo e aos rios, que transbordavam, quer de Inverno quer de Verão, e, por isso, não podiam cavalgar. quando o Grande Cã soube que os dois irmãos vinham, ficou muito satisfeito e mandou os mensageiros ao seu encontro quando faltavam ainda quarenta dias de viagem; e foram muito obsequiados e venerados.

Quando os dois irmãos e Marco chegaram à grande cidade, foram ao palácio real, onde estava o Grande Cã com muitos fidalgos e ajoelharam-se diante dele, cumprimentando-o com a máxima reverência. Ele mandou-os levantar e mostrou muita alegria, e perguntou quem era aquele jovem que estava com eles.

O senhor Nicolau disse: "Ele é vosso homem e meu filho". O Grande Cã disse: "Que ele seja bem-vindo, dá-me muito prazer". Entregues as cartas e privilégios que traziam do Papa, o Grande Cã ficou muito satisfeito, e perguntou como tudo lhes tinha corrido. "Senhor, bem, já que o encontrámos em esplêndido estado de saúde". Aqui houve uma grande alegria pela sua vinda e durante todo o tempo que permaneceream na corte tiveram maiores honras que qualquer outro barão. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - A memória - As cidades invisíveis (III)


Zora é uma cidade que se instala na memória. Surge-nos após um conjunto de cadeias montanhosas. Zora fica-nos na memória, não como outras cidades, como imagem, mas numa recordação de cada um dos seus pontos, das suas ruas, das suas casas. Zora não é especialmente bonita, mas a nossa memória permanece nas suas ruas, nos seus muros.
Há em Zora um modo como a nossa vista percorre as imagens, as figuras erigidas, como se fossem um desenho musical, uma coerência que não podemos mudar. Zora encaminha uma memória como um quadrado geométrico, onde os seus habitantes, os seus objetos, os seus sonhos se perfilam como uma constelação. Zora constrói um elo de pontos que nos dá uma memória viva da cidade.
Zora não se apaga da nossa mente. A memória de Zora faz-se de uma armadura, onde podemos ir procurar caixas, ou outros objetos, onde podemos lembrar homens famosos, virtudes, números, material vegetal ou mineral.
Os homens que a conhecem são homens sábios, são homens que guardam a memória. Quando me propus visitar Zora ela desapareceu, pois obrigada a ficar imóvel ela definhou, estagnou e desapareceu.
Zora tornou-se a terra esquecida.

A partir da leitura de Italo Calvino. (2011). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal.
Imagens - Copyright: Collen Corradi

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - As cidades invisíveis (II)


"(...) quem ouve só fixa as palavras que deseja (...) Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido" (pág. 142)

Em As cidades invisíveis, Italo Calvino revela-nos como a cidade se constrói, se delimita, se habita com o seu nome, com a morte, com os espaços celestes, com a respiração de um tempo infinito. As cidades ocultas, as que apenas se pressentem e as que indiferentemente conhecemos, as que estão em toda a parte. E que gestos, que modos fazem transformar a cidade, os seus espaços, a sua transfiguração, de modo a que ela seja "cristalina, transparente como uma libélula"(pág. 165). A cidade dos enraízados e a dos que viajam, dos que sonham, dos que ambicionam o sonho da errância, como se revivem, como se libertam? E não é cada cidade uma junção de todas as que nela viveram, ousaram ser um espaço acima de qualquer tempo?

As cidades invisíveis dá-nos ainda um diálogo fascinante entre Marco Polo e Kublai Kan, o imperador dos Tártaros e remete-nos para as possibilidades da construção do Império,  de qualquer um. O que pode o viajante Marco Polo explicar ao Imperador pelas suas viagens, as suas descrições. As palavras, o pensamento, a memória, o desejo de Marco Polo permitirá a Kublai Kan compreender a filigrana que organiza a cidade? A viagem de Marco Polo ou o Império de Kublai Kan são apenas o reconhecimento do pouco que a sua vida terá, que a nossa vida terá, no sonho do tanto inconcebível de concretizar, das cidades fixadas em palavras, ou perdidas em fórmulas inverosímeis.

No fim, pode ser traçada uma ordem invisível que governe as cidades, que nos faça compreender a sua orgânica como organismo vivo? O  real, a materialidade do império reduzido à sua essência, conduz-nos a um intrigante nada. A inútil concretização do nada, nas ruínas dos conquistadores.

Na inútil tentativa de encontrar a cidade descontinuada no espaço e no tempo, encontrá-la significa que no desconcerto da vida, precisamos saber reconhecer a força bela que a poderá fazer renascer, o que de melhor pode viver em nós. É a cidade invisível que vive acima do que é visível, do que não vemos, das ruínas do tempo. A cidade invisível também como formulação de uma esperança, a energia para uma libertação, a que permite construir caminhos novos, o progresso civilizacional que alguns sonham e que importa reconstruir em cada geração.

Italo Calvino.(2012). As cidades invisíveis. Lisboa: Quetzal, pág. 142
Imagem, "Ciutat", Tomasz Pietryk

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A palavra e o mundo - As cidades invisíveis (I)

…  Recém-chegado e ignorando completamente as línguas do Levante, Marco Polo não podia exprimir-se de outro modo que não fosse retirando objectos das suas malas: tambores, peixes salgados, colares de dentes de facóquero, e indicando-os com gestos, saltos, gritos de espanto ou de horror, ou imitando o latido do chacal e o piar da coruja. (…)

Mas o que tornava preciosos a Kublai todos os factos ou notícias referidos pelo seu inarticulado informador era o espaço que ficava à volta deles, um vazio não preenchido por palavras. As descrições   das cidades visitadas por Marco Polo tinham esse dom: podia andar-se por elas com o pensamento, nelas podíamos perder-nos, para apanhar fresco, ou fugir a correr. Com o passar do tempo, nos relatos de Marco as palavras foram substituindo os objectos e os gestos: primeiro exclamações, nomes isolados, áridos verbos, depois pedaços de frase, discursos ramificados e frondosos, metáforas e hipérboles. (…)


Kublai Kan apercebera-se de que as cidades de Marco Polo eram todas parecidas, como se a paisagem de uma para a outra não implicasse uma viagem mas sim uma troca de elementos. Agora, de todas as cidades que Marco lhe descrevia, a mente do Grão Kan partia por sua conta e risco, e desmontada a cidade peça a peça, reconstruía-a de outro modo, substituindo ingredientes, deslocando-os, invertendo-os. Marco continuava a informá-lo da sua viagem, mas o imperador já não o ouvia, interrompia-o: – De agora em diante serei eu a descrever as cidades e tu verificarás se existem e se são como eu as pensei. (…)


Do número das cidades imagináveis temos de excluir aqueles cujos elementos se somam sem um fio condutor que os ligue, sem uma regra interna, uma perspectiva, um discurso. São cidades como sonhos: todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo, ou o seu contrário, um terror. As cidades como os sonhos são construídos de desejos e de medos, embora o fio do seu discurso seja o secreto, as suas regras absurdas, as perspectivas enganosas, e todas as coisas escondem outra. (…)


O Grão Kan contempla um império recoberto de cidades que têm peso sobre a terra e sobre os homens, a abarrotar de riquezas e de movimento, repleto de ornamentos e de incumbências, complicado de mecanismos e de hierarquias, inchado, largo, pesado. “É o próprio peso que está a esmagar o império”, pensa Kublai, e nos seus sonhos agora surgem cidades leves como papagaios de papel, cidades perfumadas como rendas, cidades transparentes como mosquiteiros, cidades nervuras de folhas, cidades linhas da mão, cidades filigrana para ver através da sua opaca e fictícia espessura.



Italo Calvino. As cidades invisíveis. Lisboa:Teorema. 2011.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A palavra e o mundo - A sabedoria dos livros

Os livros são perigosos porque são aceleradores e intensificadores da nossa experiência humana, abrem portas e janelas que nem sequer sabíamos que existiam, são surpreendentes encontros de vida. Ao mesmo tempo são cúmplices inesperados da nossa aventura humana. Cada um de nós é também os livros que leu, os autores que encontrou. Os livros são esse alargar de horizontes que permitiram aquele encontro mais secreto e profundo com a nossa voz. O ato da leitura é um ato de exposição, mesmo quando parece muito inocente acaba por ser uma aventura da qual nenhum de nós sai verdadeiramente igual à forma como entrou.


A minha primeira biblioteca foi a minha avó, analfabeta, mas sabia romances de cor e era um encanto escutá-la. O que formou a minha alma foi a leitura dos poemas, que é feita mais de intensidade e de fulgores. A poesia dá-nos mais espaço para o silêncio, é como um relâmpago a que se segue muita outra coisa, que é da construção do leitor. A oração diária do livro dos salmos foi música no meu ouvido. A leitura da poesia foi uma espécie de iniciação ao ato de ler. Penso que a poesia é uma ordem mendicante, os poetas são mendigos do real. Por vezes temos uma atitude de dominação sobre as coisas e os outros, mas se cairmos em nós percebemos que somos e sabemos pouco. A aceitação dessa escassez é fundamental para nos abeirarmos do mundo de outra forma.


Acontece pensarmos que o nosso tempo se destacou como uma jangada de pedra ou metafísica da história humana, e acreditamos que somos radicalmente outra coisa diferente do que os homens foram, do que gravaram na pedra, do que escreveram. E de repente, ao lermos textos antigos e contemporâneos, percebemos que estamos muito próximos dos nossos antepassados, que são, de certa forma, também os nossos sucessores.


Job, por exemplo, o homem do protesto, que não aceita as respostas fáceis em relação ao sofrimento, que desentende o sentido de o homem justo ter de penar neste mundo; e quer falar diretamente com Deus, e Deus aceita essa espécie de duelo verbal com Job. Com a forma como esse livro está escrito, a sua arquitetura, as suas palavras, a raiva, percebemos que estamos inteiramente ali, aquelas palavras são as que nós diríamos.


Não consigo separar a sabedoria do amor; a sabedoria é uma inteligência, uma ciência, uma arte, mas é tudo isso como uma forma de amar. Quando pensamos na grande sabedoria, pensamos naqueles que, vivendo a grande depuração que o tempo opera em cada um de nós, são capazes de conservar uma inocência, uma pureza, um afeto. É sempre necessária uma porção muito grande de amor para chegar à sabedoria.


S. Paulo, no momento da conversão, ficou cego para começar a ver. A cegueira é uma metáfora de uma outra visão. É necessário um apagamento, um corte. Quer a experiência da tradução quer a da criação literária nasce de um corte primordial, que é muitas vezes a contemplação do mundo, o espanto perante o real. Esse corte obriga-me a ver as coisas de outra forma. Há que apagar o modo imediato, comum, mais óbvio e aceitar a escuridão, aceitar que não vemos, só tateamos.


Jesus perguntava: «Como ousas dizer ao teu irmão: “Deixa-me tirar o argueiro da tua vista”, tendo tu uma trave na tua?». Este exercício de humildade em relação à vida é muito importante para o ato da criação. Por outro lado devemos perceber que na escuridão nós vemos. Em criança temíamos o escuro, e mais tarde aprendemos que no escuro vemos muitas coisas que nele se revelam. E aceitamos como preciosas essas coisas que percebemos dessa forma. Há que ensaiar novas visibilidades, novas formas de compreensão do mundo, sabendo que a sabedoria pede de nós uma fome e sede inesgotáveis. Comove-me muito que o professor Eduardo Lourenço esteja aqui a tomar notas na primeira fila. É essa curiosidade infinita pelo mundo e pelos outros que é sabedoria, que creio ser a mais elevada forma de amor.


A relação pedagógica é uma grande paixão. É muito interessante ver chegar uma geração de estudantes. Em Teologia tenho o privilegio de não ter turmas muito grandes, é possível acompanhar o percurso de cada aluno. Isto é para mim muito estimulante. O trabalho do professor é muito do semear. Há coisas que vemos mas o mais importante é, por vezes, o que não vemos. Isto aproxima-se muito de uma definição que gosto muito de amor: amar é não controlar o que o outro vai fazer do amor. Há testes e exames, e aí o professor pode avaliar, mas sabemos que os percursos mais fecundos aconteceram para lá dos resultados: foi uma marca, um estímulo, uma palavra, um despertar que depois se tornou uma âncora para a vida e fez a diferença. Aprendo muito com os estudantes, e o que me interessa é passar um método, uma paixão por um determinado assunto, porque sei daqui a 10 ou 20 anos eles falarão deles com outras palavras, citando outros autores, mas o entusiasmo será o mesmo.


Quanto mais inúteis são as coisas de que me ocupo, mais feliz me deixam.


"A sabedoria dos livros" - Encontro entre José Tolentino Mendonça e Frederico Lourenço, 

Festa do Livro. Jardins da Presidência da República, Lisboa, 2.9.2016

Imagem - Copyright: Gustav Adolph Hennig, Lesendes Mädchen, 1828

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A palavra e o mundo - em nome da terra - (II)


O teu corpo. O amor do teu corpo e tudo o que é possível acumular para uma vida, esse resgate permanente da tua juventude, da tua perfeição que é a nossa identificação para pronunciar Terra ou Universo ou Deuses. É contigo, com a tua expressão de amor que em átomos de energia e sorrisos, de pele branca que nos encontramos na mais desnudada imaginação.
É a construção da nossa mortalidade, mas é mais do que apenas material. É feita de deslumbramento, de mistério e de impossível, pois a ternura só se formula nessa criação de doçura. Uma doçura capaz de em momentos de tempo mais lento permitir a nossa criação, entre a tua agilidade, o teu riso de nuvem, os teus cabelos soltos em caracóis, as tuas mãos de chuva, a tua vitalidade de mármore feita corpo transbordante de alegria.

E agora que sucumbo às feridas do tempo, em que tropeço nas minhas mãos gastas, com linhas de chuva escorrendo, como gotas de vidraças ensombradas de vento vejo as áleas da janela que resistem aos dias seguidos de rotina. Decoram o mais longe, com braços esguios nascidos em rugas que o tempo acastanhou e de onde flores de vento se erguem como pequenos jardins. E deste amor que se lembra, como amar-te agora em rugas de silêncio, no tempo do acontece, na essência da eternidade, acima da memória descalcificada. O sublime é sempre uma iluminação, ama-se com esse sentido de circunstância, a forma de escrever eternidade, como quando os astros se juntam numa galáxia de luz.

É o ponto inicial e final de consumir beleza, o fascínio encontrado nos teus olhos, o amor do qual não sabíamos sair, o mundo que não existe, as formas maciças de toda a expressão corporal, o fundamento da terra. E em casas, como árvores ouvíamos a folhagem, o silêncio do absoluto, os seres da terra, a sua música e talvez também Deus. E era para superar a nossa mortalidade e o seu poder, a sua omnipotente vaidade que nos amávamos até que perdemos o que era o amor, essa canção sem lobos.

E dos momentos em que partiste tornou-se impossível recuperar as formas e o movimento de como, de quanto te amei. As formas possíveis do que fomos, a nossa ontologia, como uma natureza viva que já não se recupera no desenho do teu rosto, pois já não sobra do real que vejo. O amor éramos nós nesses tempos de rio e bosques e com o universo fomos só uma forma de eternidade. O corpo que se transcende de angústia de tempo deu-nos essa totalidade de nós. O que farei desse sonho de nuvem?

Com as palavras de Vergílio ou o que elas me dizem. Vergílio Ferreira. (1990). em nome da terra. Imagem: © – Acompletelife.