terça-feira, 14 de abril de 2015

O livro e o leitor

Aquelas palavras, que provavelmente ninguém, pelo menos naquela forma precisa, alguma vez tivesse dito antes, tiveram a fortuna de não se perderem por si próprias, pois alguém as juntou, e quem sabe, talvez o mundo fosse um lugar melhor se nós fossemos capazes de juntar algumas das palavras que estão por aí vagueando sozinhas.” (1)

O livro foi (Alberto Manguel) a maior invenção do espírito humano. Artefacto da leitura, ele marca a História das Instituições e a evolução social, pois por ele se lê o que nos rodeia, sendo por isso uma ferramenta de análise e assimilação de valores culturais. Antes de falar da leitura devemos considerar o livro. A importância do livro nas sociedades históricas releva da construção da memória, da afirmação e coesão do contexto social, mas também das suas marcas nos espaços privados, na construção do gosto individual. 

O livro permite abrir o individual ao mundo e ser utilizado como “uma ferramenta cívica primordial” (Gabriel Zaid), exprimindo a diversidade. É nesse sentido uma poderoso meio de formação e por isso suscita a dúvida e a inquietação em espíritos e sociedades reguladoras da memória. A destruição do livro, a sua censura foi sempre uma forma de limitar as possibilidades de participação e de construção da cidadania.

O livro tem pois um valor significativo, mas também simbólico. Ele empresta ao quotidiano, aspectos organizativos, concedeu a valoração a muitas representações culturais e certificou ideias emergentes e causas. O livro revela-se pois, como objecto e ferramenta de um quotidiano, onde o leitor constrói a escrita do livro.

Neste mistério que é a compreensão do acto criativo pelas palavras, torna-se um desafio comparar, visualizar o diálogo entre a voz do escritor e a voz do texto. Leitura e assimilação que foi feita de modo diverso e que as portas da leitura realizaram ao alimentarem mundos particulares. O texto e o seu autor como centralidade da inteligibilidade do texto, cedeu na 2ª metade do século XX, grande do seu destaque ao papel do leitor na construção da leitura. É o leitor e a leitura que permitem justificar o livro. 

António Lobo Antunes costuma dizer que depois de escrito, o livro é do leitor. As diversas leituras dão ao livro significados diferentes no tempo e no espaço. Leituras do próprio autor, em função dos contextos diferenciados, onde a leitura pública ofereceu respostas a questões tão significativas como a formação dos leitores, as dúvidas do autor e até a censura dos livros. A leitura pública na Grécia de Péricles tem efeitos no leitor divergentes das leituras que Dickens fazia. 

O texto conduz-nos a geografias, mistérios diversos, em espaços quotidianos que não vivemos e por onde os leitores emergem, vivendo e construindo “faculdades sensórias, emotivas e cognitivas” (W. Iser). A leitura concede assim aos leitores possibilidades de participar na aventura humana, vivendo com o livro experiências, descobertas que são janelas do seu crescimento e do desenvolvimento humanos. A escrita e a sua fundamentação, a leitura realizam uma viagem a várias vozes. O leitor e as personagens que ele desenha com o olhar e o som das sílabas sobrevivem ao autor. Madame Bovary é-nos mais real que Flaubert e Alice mais encantadora e fascinante que Lewis Carroll. Vemos pois, com Borges que a escrita da página é realizada por múltiplos autores.

Processo dinâmico, possível pela construção ou “fusão de horizontes”, o do texto e o da leitura, pela utilização da memória e dos seus recursos e pelas múltiplas formas de ser leitor. Quantas minorias não reelaboraram o quotidiano, o privado, a partir da leitura individual dos livros. O modo como se alimentou o coração das sílabas e como elas influenciaram o vivido é algo que o escritor nos dá apenas em parte. Na sociologia da leitura e na História das Mentalidades falta fazer esta relação que relacione os quadros mentais das sociedades com os espaços vividos e com as oportunidades que as personagens literárias criaram. 

Por estas podemos verificar a arqueologia dos aspectos mais simbólicos do livro. O seu leitor. E ele ao sê-lo, utiliza a leitura como uma criação de um espaço múltiplo e diverso. Constrói uma conversação consigo, restabelecendo oportunidades pelo que diferente vai conhecendo, mas também com o mundo. Neste tempo de globalização de valores, iniciativas, mercados e opções de civiização importa deixar a ideia de que não é o centro sempre uniforme que nos importa, mas sim a multiplicidade de vozes que existem em cada lugar do planeta. O livro traz-nos isso, pela leitura e pela oportunidade de construção de uma conversação que será sempre múltipla e diversa.

(1) José Saramago, Seeing.

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