segunda-feira, 26 de outubro de 2015


Uma vez, quando eu tinha seis anos, vi uma imagem magnífica num livro sobre a Floresta Virgem, chamado "Histórias Vividas". A gravura mostrava uma jibóia a engolia uma fera. Fiz-vos esta cópia.

O livro dizia que "a jibóia  engole a presa inteira, sem mastigar. Depois não se pode mexer e passa os seis meses de digestão a dormir." 

Então, pensei e tornei a pensar nas aventuras da selva, peguei num lápis de cor e fiz o meu próprio desenho. O meu desenho número 1. Ficou assim:


Fui mostrar a minha obra-prima às pessoas crescidas. Perguntei-lhes se o meu desenho metia medo. As pessoas crescidas responderam-me: "Porque é que um chapéu havia de meter medo?"
O meu desenho não era um chapéu. O meu desenho era uma jibóia a fazer a digestão de um elefante. Para as pessoas crescidas entenderem porque as pessoas crescidas estão sempre a precisar de explicações, fui desenhar a parte de dentro da jibóia. O meu desenho número 2 ficou assim:


As pessoas crescidas disseram que era preferível eu deixar-me de jibóias abertas e fechadas, e dedicar-me à geografia, à história, à matemática e à gramática. E assim abandonei, aos seis anos, uma magnífica carreira de pintor. Ficara completamente abalado com o insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas crescidas nunca entendem nada sozinhas e uma criança acaba por se cansar de lhes estar sempre a explicar tudo.
Escolhi, portanto, outra profissão e aprendi a pilotar. Conheci grande parte do mundo de avião. E, afinal, a geografia acabou por me prestar bons serviços. Saber distinguir a China do Arizona à primeira vista pode ser bastante útil depois de uma noite a voar sem rumo certo.
Com um trabalho deste género tive, evidentemente, uma data de contactos com muita gente importante. Vivi durante anos e anos no mundo das pessoas crescidas. Vi-as de bem perto. Não fiquei com muito melhor opinião delas.

Mal encontrava uma com um ar um pouco lúcido, fazia-lhe a experiência do meu desenho número 1, que nunca deitei fora. Queria verificar se realmente era capaz de entender alguma coisa. Mas ouvia sempre a mesma resposta: "É um chapéu". Então, não me punha a falar de jibóias, de florestas virgens ou de estrelas. Punha-me ao seu nível. Falava de bridge, de golfe, de política e de gravatas. E a pessoa crescida ficava toda contente por ter conhecido um homem tão sensato.

Antoine de Saint-Exupery, O Principezinho. Editorial Presença, 32ª edição. Lisboa: 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2015

As Bibliotecas: a palavra


As Bibliotecas são a mais bela invenção da humanidade. Nelas construímos uma memória e por isso nela vemos uma construção de divindade, por essa dimensão de espaço e tempo que connosco emerge em páginas de sabedoria, em filas de amizade connosco vividas. Há quem já não as ache um templo, pelas necessidades de leituras em novos formatos, pelas competências digitais que importa desenvolver. Continuo a achar que o espaço, aquela matéria de eternidade é ainda um templo. 

A Biblioteca permite ser um espaço de recolhimento, entre os livros, onde podemos desfrutar momentos de lazer e de conhecimento. Nos últimos anos tem-se insistido em classificá-las, em função da sua capacidade de construir colecções, serviços ou comunidades e destas dimensões haveriam de nascer as que seriam as melhores Bibliotecas. Ainda assim um templo.

A Biblioteca deve ser vista como um espaço cultural, de confluência de várias artes. Deve permitir a promoção da capacitação institucional. A Biblioteca é o espaço para construir a leitura, fazer leitores, alimentar esse fundo de imaginação capaz de dotar todos de melhores possibilidades de vida, porque de escolhas suportadas em conjuntos de dados, de ideias, de pensamentos mais completos, mais divergentes. Uma Biblioteca faz assim o leitor. E o que representa ler?

A Biblioteca é um espaço, mas é sobretudo o que fazemos nela, as ideias que tivemos com ela, com os livros e as que ainda tentamos ter, nos dias seguintes. A leitura. É com ela que disciplinamos o olhar e em transformamos o olhar, o ver normal, óbvio para outra coisa, onde superamos o medo e dispensamos o útil. A leitura é um dos nossos maiores privilégios.

É com a leitura que construímos na imaginação um campo de imagens. Por que ler é a partir das palavras e das frases, construir   as imagens que nos darão os mundos possíveis. Um bom leitor não lê apenas as frases, lê as imagens das palavras. Um mau leitor é o que apenas lê a frase. A palavra está muito ligada ao seu desenho, à sua caligrafia. O alfabeto, o livro, o número baseiam-se nessa ideia de desenho do traço. Deve pois, a Biblioteca acolher esse traço, envolver os leitores com esse desenho da palavra. Esse desenho da palavra conduz-nos ao livro.

Imagem - Galeria Vivienne, Paris.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Memória de Anne Frank



Lembro-me de uma altura em que coisas como um magnífico céu, pássaros  a chilrear, luar e flores em botão não me teriam cativado. As coisas mudaram desde que vim para aqui. Por exemplo, uma noite, na altura de Pentecostes, quando estava muito calor, fiz um grande esforço para ficar acordada até ás onze e meia para poder ver bem a lua, desta vez sozinha, para variar. Infelizmente o meu sacrifício foi em vão, uma vez que estava muita claridade e não me podia arriscar a abrir a janela. De outra vez, há vários meses, fui por acaso lá acima e a janela estava aberta. 

Só voltei para baixo quando a forem fechar. A noite escura e chuvosa, o vento, as nuvens a correr, tudo isto me hipnotizou; foi a primeira vez, em ano e meio, que vi a noite cara a cara. Depois dessa noite, o meu desejo de a voltar a ver tornou-se maior que o meu medo de assaltantes, de uma casa escura e infestada de ratazanas ou de rusgas policiais.  Descia sozinha e olhava pela janela da cozinha ou do gabinete privado. Muitas pessoas acham a natureza bela, muitas pessoas dormem de vez em quando debaixo de um céu estrelado, e muitas pessoas em hospitais e prisões esperam ansiosamente o dia em que serão livres para apreciar o que a natureza tem para oferecer. 

Mas poucas estão tão isoladas como nós das alegrias da natureza, que são para partilhar igualmente entre ricos  e pobres. Não é só a minha imaginação - olhar para o céu, as nuvens, a lua e as estrelas, faz-me realmente sentir calma e esperançada. É um remédio muito melhor que valeriana ou brometo. A natureza faz-me sentir humilde e pronta para enfrentar todos os golpes com coragem! Infelizmente, excepto raras ocasiões, só posso ver a natureza através de cortinas empoeiradas, presas sobre janelas sujas; isso  tira o prazer da observação. A natureza é a única coisa para a qual não há substituto!
(Diário de Anne Frank, 13 de Julho de 1944)


É uma história antiga e nestes dias em que dominam os privilégios do pensamento utilitário é muito importante lembrar sempre e em profundidade cívica, o que representou o Holocausto e como a dignidade, a esperança, a vida foi destruída em nome de nenhum valor. Primo Levi disse-o com clareza, "aconteceu aqui, na Alemanha, num país com uma cultura de referência, pode voltar a acontecer". É sobre isso, sobre o esquecimento que hoje se pratica que importa lembrar o nascimento de Anne Frank.

segunda-feira, 11 de maio de 2015


Título: O Irmão Lobo
Autor: Carla Maia de Almeida
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: Planeta Tangerina
ISBN: ...
CDU: ...
Sinopse:
The tast of love is sweet
When hearts like ours meet
I fell for you like a child
      Oh, but the fire went wild. (1)

Irmão Lobo é uma proposta de leitura para pensarmos como reconstruir o que liga as pessoas num espaço comum. Que imagem, que artefacto, que memória, que valor seguro para alimentar no coração, a esperança, que na vida ainda permita esse momento único - flutuar sempre, como as algas suspensas no azul.


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia mundial do livro - 2015


Os livros são um dos objetos primordiais do que podemos chamar uma civilização. Com os livros guardamos a memória e as inquietações anteriores a nós, mas também neles desco-brimos que eles nos fazem pensar melhor, afinal que podemos evoluir como pessoas, como sociedade.

É na leitura que nos descobrimos, que verificamos os valores que nos conduzem, as formas de encontro que conseguimos estabelecer com os outros. Os livros que lemos dizem muito das pessoas que con-seguimos ser, dos conhecimentos que multipli-camos nas ideias que apreendemos e da per-ceção que temos do mundo e de nós próprios.


 Os livros emergem com as pala-vras, ao nomeá-las, estamos a dar-lhes a substância de existirem, mesmo que se refiram ao que não temos, mesmo que sejam os so-nhos antes dos sonhos, a respira-ção de ver o que se ama. Os livros e a leitura confirmam essa possibilidade maior de aceitarmos em partilha as vozes que nos chamam para o reconhecimento múltiplo da humanidade. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

O livro e o leitor

“Aquelas palavras, que provavelmente ninguém, pelo menos naquela forma precisa, alguma vez tivesse dito antes, tiveram a fortuna de não se perderem por si próprias, pois alguém as juntou, e quem sabe, talvez o mundo fosse um lugar melhor se nós fossemos capazes de juntar algumas das palavras que estão por aí vagueando sozinhas.” (1)

O livro foi (Alberto Manguel) a maior invenção do espírito humano. Artefacto da leitura, ele marca a História das Instituições e a evolução social, pois por ele se lê o que nos rodeia, sendo por isso uma ferramenta de análise e assimilação de valores culturais. Antes de falar da leitura devemos considerar o livro. A importância do livro nas sociedades históricas releva da construção da memória, da afirmação e coesão do contexto social, mas também das suas marcas nos espaços privados, na construção do gosto individual. 

O livro permite abrir o individual ao mundo e ser utilizado como “uma ferramenta cívica primordial” (Gabriel Zaid), exprimindo a diversidade. É nesse sentido uma poderoso meio de formação e por isso suscita a dúvida e a inquietação em espíritos e sociedades reguladoras da memória. A destruição do livro, a sua censura foi sempre uma forma de limitar as possibilidades de participação e de construção da cidadania.

O livro tem pois um valor significativo, mas também simbólico. Ele empresta ao quotidiano, aspectos organizativos, concedeu a valoração a muitas representações culturais e certificou ideias emergentes e causas. O livro revela-se pois, como objecto e ferramenta de um quotidiano, onde o leitor constrói a escrita do livro.

Neste mistério que é a compreensão do acto criativo pelas palavras, torna-se um desafio comparar, visualizar o diálogo entre a voz do escritor e a voz do texto. Leitura e assimilação que foi feita de modo diverso e que as portas da leitura realizaram ao alimentarem mundos particulares. O texto e o seu autor como centralidade da inteligibilidade do texto, cedeu na 2ª metade do século XX, grande do seu destaque ao papel do leitor na construção da leitura. É o leitor e a leitura que permitem justificar o livro. 

António Lobo Antunes costuma dizer que depois de escrito, o livro é do leitor. As diversas leituras dão ao livro significados diferentes no tempo e no espaço. Leituras do próprio autor, em função dos contextos diferenciados, onde a leitura pública ofereceu respostas a questões tão significativas como a formação dos leitores, as dúvidas do autor e até a censura dos livros. A leitura pública na Grécia de Péricles tem efeitos no leitor divergentes das leituras que Dickens fazia. 

 O texto conduz-nos a geografias, mistérios diversos, em espaços quotidianos que não vivemos e por onde os leitores emergem, vivendo e construindo “faculdades sensórias, emotivas e cognitivas” (W. Iser). A leitura concede assim aos leitores possibilidades de participar na aventura humana, vivendo com o livro experiências, descobertas que são janelas do seu crescimento e do desenvolvimento humanos. A escrita e a sua fundamentação, a leitura realizam uma viagem a várias vozes. O leitor e as personagens que ele desenha com o olhar e o som das sílabas sobrevivem ao autor. Madame Bovary é-nos mais real que Flaubert e Alice mais encantadora e fascinante que Lewis Carroll. Vemos pois, com Borges que a escrita da página é realizada por múltiplos autores.

Processo dinâmico, possível pela construção ou “fusão de horizontes”, o do texto e o da leitura, pela utilização da memória e dos seus recursos e pelas múltiplas formas de ser leitor. Quantas minorias não reelaboraram o quotidiano, o privado, a partir da leitura individual dos livros. O modo como se alimentou o coração das sílabas e como elas influenciaram o vivido é algo que o escritor nos dá apenas em parte. Na sociologia da leitura e na História das Mentalidades falta fazer esta relação que relacione os quadros mentais das sociedades com os espaços vividos e com as oportunidades que as personagens literárias criaram. 

Por estas podemos verificar a arqueologia dos aspectos mais simbólicos do livro. O seu leitor. E ele ao sê-lo, utiliza a leitura como uma criação de um espaço múltiplo e diverso. Constrói uma conversação consigo, restabelecendo oportunidades pelo que diferente vai conhecendo, mas também com o mundo. Neste tempo de globalização de valores, iniciativas, mercados e opções de civiização importa deixar a ideia de que não é o centro sempre uniforme que nos importa, mas sim a multiplicidade de vozes que existem em cada lugar do planeta. O livro traz-nos isso, pela leitura e pela oportunidade de construção de uma conversação que será sempre múltipla e diversa.

(1) José Saramago, Seeing.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um livro - Entrevista a Einstein

Título: Entrevista a Einstein
Autor: Jean Claude-Carrière
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: Quetzal
ISBN: 978-972-564-686.6
CDU: 821.133.1-83"20"

Sinopse:
« (…) Durante muito tempo, pensámos em linhas rectas, pelo menos esforçámo-nos por isso, em termos de rectidão e de clareza, com a ajuda daquilo a que chamávamos a lógica, a razão, ou ainda a geometria; no nosso pensamento rectilíneo, esforçávamo-nos por ir de um ponto ao outro, o mais rapidamente, o mais simplesmente possível, o nosso pensamento evoluía em triângulos, quadrados, rectângulos e subitamente fomos invadidos pela curva! Pela sinuosidade! 

(…)
O pensamento é lento e frágil. Não é soberano. Não é a coisa mais bem partilhada do mundo, longe disso. Para uma massa de espíritos receosos, saber é enganar-se, saber é perder-se. Subsiste em todos nós algo de mágico e de feérico. Precisamos de feiticeiros, que nos toquem a flauta imperecível e que se encham à nossa custa. Preferimos a crença ao conhecimento, as patranhas às certezas. É assim. (…)

É fácil de compreender. Veja: o universo é irresistível. Constitui uma autêntica sedução. É belo, se esta palavra ainda tem sentido nestes espaços incomensuráveis. Ele encerra em si toda a beleza. Cruelmente, sempre que o olhamos, reduz-nos sem cessar à nossa insignificância. Esmaga-nos. E, no entanto, ao acolher-nos, amplia-nos, abre-nos os olhos e, mais ainda, o nosso espírito, aceita-nos. Os Antigos diziam: revela-se-nos, mostra-se. Ao contrário de Deus, que põe tanto cuidado em se esconder, ele é um imenso exibicionista.(…)

Esta necessidade de um objectivo, de um desígnio, primeiro passo para a finalidade geral do mundo, aplicámo-la, ao que parece, ao universo, como se tudo tivesse de funcionar num sentido comparável ao nosso. Como se as galáxias e os electrões se deslocassem sobre a nossa atitude e desposassem todos os nossos movimentos interiores. Como se o sentido dominasse a realidade. Como se, nos infinitamente grande e pequeno, tudo obedecesse à vontade de alguém, à maquete de um arquitecto habilmente dissimulado. Como se as estrelas estivessem ali penduradas para responder às nossas velhas perguntas. (…)

Quando um pensamento percorre incessantemente o universo, quando se aventura e se perde em distâncias incomensuráveis, na infinidade dos possíveis, e se volta por um momento a fim de fixar nas minúsculas querelas da Terra, reivindicações de fronteiras, possessões, insultos e ameaças (…) um nacionalismo estreito, mesquinho, que nos deixa paralisados, o que dizer?
Como reagir, no regresso das estrelas?»

(É um pequeno grande livro sobre uma figura enorme, justamente Einstein. Um livro que nos dá a hipotética entrevista de um homem que repensou o universo. Por ele caminhamos pela sabedoria de um homem que redesenhou os conceitos do espaço e do tempo, da matéria e da energia. Uma fonte de informação e de prazer sobre a diversidade de uma das mais importantes figuras do século passado. Um livro a descobrir.)

quinta-feira, 12 de março de 2015

Um escritor no mês: as palavras de Agustina


"Todos os meus livros são, afinal, só isso, a oportunidade de milhões de almas, únicas, todas elas, almas de sapinhos cheios de importância de viver. [...] Uns partem um pouco depois de dizerem bom dia, outros ficam até morrer. Todos se continuam naquilo que têm de profundamente entre si - a vocação para serem sós, porém aceites por cada uns dos outros. Porque a solidão que me acusam de impor aos meus personagens, como uma grilheta, é apenas a sua individualidade biológica, a exclusividade, a reivindicação superior da sua própria luta. Um homem jamais corresponde a outro homem; as suas reacções e conclusões não equivalem a vivência de outra alma, a experiência do outro eu. O mistério do eu cumpre-se em cada homem de forma única". (1)

Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de Verão que declina, e temos 11 anos e sabemos que o dia seguinte é fundamental para que os nossos desejos se cumpram. Quem conservar este sentimento pela vida fora está predestinado a um triunfo, talvez um tanto sedentário, mas que tem o seu reino no coração das pessoas. (2)

O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome. (3)

Não são os crentes que se salvam; são os que esperam em plano de igualdade com o que é eterno - a vida humana e a realidade dos seus direitos. Devo acrescentar aqui alguma coisa que sempre me pesou: acima dos amigos eu tive o pensamento; além da gratidão, eu pus o amor forte e generoso pela vida. (4)


Agustina Bessa-Luís, in:
(1) in Revista Lusíada. Porto, Outubro, 1955.
(2) As Pessoas Felizes
(3) Sibila
(4) O chapéu de fitas a voar

segunda-feira, 9 de março de 2015


Título: Voo Noturno
Autor: Antoine de Saint-Exupéry
Edição: 1ª
Páginas: 215
Editor: Casa das Letras
ISBN: 978-972-46-2050-3
CDU: 821.131.1-93

Sinopse: Numa nova semana ainda sob o foco da cultura francesa e de um seus grandes nomes, justamente Antoine de Saint-Exupéry. Voo Nocturno dá-nos em livro, um autor maior da literatura universal. Nas suas páginas, revemos a nossa natureza exposta aos sonhos e aos desejos, de respirar com os outros novas dimensões de humanidade. Em Voo Noturno Saint-Exupéry dá-nos a descoberta dos grandes espaços, entre o mar e o deserto, na ousadia de superar as limitações do homem sobre a natureza. Um pouco auto-biográfico, Voo Noturno é um desenho de um Homem maior, aquele que enfrenta no ar todos os desafios ainda num tempo humano.

Um escritor no mês - Agustina

   

  


segunda-feira, 2 de março de 2015

Um livro - Longos dias têm cem anos


Título: Longos dias têm cem anos
Autor: Augustina Bessa-Luís
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: Guimarães Editores
ISBN:  978-972-665-568-8
CDU: 821.134.3-94"19/20"

Sinopse: "Maria Helena não tem a simpatia pronta, por isso as entrevistas que dá embatem contra uma superfície lisa, um espelho onde tremem reflexos, onde se procuram teoremas. O repórter tenta desdobrá-la como um pano cuidadosamente enrolado, e sucedem-se os espaços neutros e, de certa maneira, as evasivas. Ela não confia nesse intuito de divulgação, porque o espírito humano não se divulga. A paz e o sofrimento não se divulgam; são fluidos depois de usados, e, no momento em que se praticam, não têm rosto e, assim, não se podem descrever.

(...) Todas as vezes em que procurei Maria Helena porque eu estivesse doente, ou desanimada (como foi o caso, em 1965, de eu pensar em deixar o País), aí deparei com a verdadeira presença que não se distrai, não vagueia, não ilude. Maria Helena reage às coisas concretas e essenciais com uma prontidão admirável.

É raro que as pessoas tenham esse respeito pelo essencial. Costumam escapar ao essencial e ocupar-se pormenorizadamente do acessório. E a vida parece nelas um tumulto de confabulações e artes, sem nada de resistente ou de culto. Aproximamo-nos da Maria Helena e ela pode olhar-nos como se fôssemos um objecto mais ou menos preciso mas que não atrai a curiosidade nem o afecto. Mas se tocamos esse registo do essencial, se houver em nós um risco, um alarme, ela actua e torna-se de repente incansável; algo mais do que amizade e incorrupção da aliança humana surge, como uma flor."


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Memória de Charles Darwin


É uma das formas possíveis de compreender o Homem, a Vida e o Universo. Não é definitiva, mas tem em si possibilidades significativas. Desde os Gregos que o Homem procura compreender a sua natureza, mas também o que o envolve, o meio natural, através de equações que possam ser sistematizadas pela razão. 

Entre os criadores e pensadores de diferentes tempos que contribuíram para o alargamento da Ciência, um tem especial destaque, Charles Darwin. As ideias de Darwin abriram campos novos na ciência. Da Biologia, à Medicina e à Antropologia ele fez avançar a Ciência, que mais não é que a procura racional de compreender o mundo e os seus fenómenos. 

O campo científico contemporâneo é-lhe devedor na formulação do seu próprio pensamento. Um video que nos lembra a importância das suas ideias quando olhamos o universo e a natureza humana. Lembramos a sua teoria da evolução, no dia do seu nascimento.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Garrett - A memória de um tempo longo


(Livro emblemático de Garrett, numa viagem, onde o imobilismo social anunciava solidamente as dificuldades da sociedade liberal em se afirmar nos seus princípios mais nobres. Retrato de um anacronismo histórico que se repetiria no futuro, em formas diversas com outros actores).

"Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a oposição dos frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e aproveitar. O Progresso e a Liberdade perdeu, não ganhou. Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruínas, os congressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades - não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. E sei que me não enganam poesias; que eu reajo fortemente com uma lógica inflexível contra as ilusões poéticas em se tratando de coisas graves.

E sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos de contradição desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é. Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polónia, no Brasil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficávamos muito melhor do que estamos com meia dúzia de clérigos de requiem para nos dizer missa; e com duas grosas de barões, não para a tal oposição salutar, mas para exercer toda a influência moral e intelectual da sociedade - porque não há de outra cá.

E senão digam-me: onde estão as universidades, o que faz essa que há senão dar o seu grauzito de bacharel em leis e medicina? O que escreve ela, o que discute, que princípios tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve dela senão algum eco tímido e acanhado do que noutra parte se faz ou diz?
Onde estão as academias?
Que palavra poderosa retine nos púlpitos?
Onde está a força da tribuna?

Que poeta canta tão alto que o ouçam as pedras brutas e os roblles duros desta selva materialista a que os utilitários nos reduziram? Se exceptuarmos o débil clamor da imprensa liberal já meio esganada da polícia, não se ouve no vasto silêncio deste ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.
Dez contos de réis por um eleitor!
Mais duzentos contos pelo tabaco!

Três mil contos para a conversão de um anfiguri!
Cinco mil contos para as estradas dos aeronautas!
Seis contos para isto, dez mil contos para aquilo!
Não tardam a contar por dezenas de milhares.
Contar a eles não lhes custa nada.
A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel - a terra e a indústria.  (...)

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?"

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Garrett e o seu tempo


Almeida Garrett nasceu a 4 de Fevereiro de 1799, no Porto. Teve na sua infância, uma formação religiosa e clássica. Concluiu o curso de Direito em Coimbra, onde aderiu aos ideais do liberalismo. Em 1823, após a subida ao poder dos absolutistas, é obrigado a exilar-se em Inglaterra onde inicia o estudo do romantismo (inglês), movimento artístico-literário então já dominante na Europa.

Regressa em 1826 a Portugal e passa a participar na vida política. Em 1828 é obrigado a exilar-se novamente em Inglaterra devido ao curso do País com a guerra civil, no decurso das posições de D. Miguel. Em 1832, na Ilha Terceira,1832, integra o exército liberal de D. Pedro IV e participa no cerco do Porto. Exerceu funções diplomáticas em Londres, em Paris e em Bruxelas.

Em 1836, torna-se Inspector - geral dos Teatros e funda o Conservatório de Arte Dramática e o Teatro Nacional. A partir de 1842, com a ditadura de Costa Cabral, Almeida Garrett torna-se marginal à vida política e inicia o período mais produtivo da sua vida literária.
A partir da década de 1850, com Fontes Pereira de Melo, será nomeado visconde e desempenha a função de Ministro dos Negócios Estrangeiros. É sem dúvida um dos expoentes do romantismo português e um escritor que, entre géneros diversos, inovou na composição dos mesmos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A cidade de Garrett


O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito  que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.

 O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de S. Vítor correndo nos sulcos da sua melancolia. 

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida. Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.


Eugénio de AndradeA Cidade de Garrett

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Memória, cultura e cidadania - Aristides - Memórias do Holocausto


Na homenagem às vítimas do Holocausto merece referência um homem muito especial, Aristides de Sousa Mendes. Lembremo-lo como um homem imenso que também participou naquilo que foi a caminhada dos justos. Aristides é um exemplo a diversos níveis. Conhecer a sua vida, o enquadramento social, económico e cultural de outras figuras do País cinzento dos anos trinta e quarenta dá-nos uma real dimensão do seu valor.

Aristides foi um homem que ensinou ao mundo e a este País como a nossa única obrigação é com a nossa consciência. Ignorado nos livros de História durante décadas deu-nos a honra de vincular este País a um verdadeiro heroísmo, o de contribuir para a civilização contemporânea de um modo construtivo, mas acima de tudo empenhado com a sua tradição humanista.
 Um homem que provou na sua vida o que é a bondade, o que é estar preocupado com os outros, com o seu futuro, com o modo como vivem. Um homem que se preocupou com a vida dos outros e que fez por essa defesa mais do que um País inteiro, num tempo difícil. Quando se recomendava a cautela ele ousou contra os maiores perigos, desafiando os que proibiam, perseguiam e calavam os que queriam ter a possibilidade de dizer uma palavra, a da sua dignidade.

Um homem generoso, cristão de formação, diplomata de profissão salvou milhares de vidas, arriscou na sua consciência a sua própria família ensinando-nos o valor da partilha e da luta por uma convicção. Salvou um grande número de judeus pelos vistos que lhe foi consecutivamente atribuindo, de modo a que fosse possível salvar a vida de pessoas que apenas queriam existir.

Um homem que revelou nas dificuldades que sofreu, nas humilhações recebidas, mas essencialmente na luta abnegada pelo amor à vida a imensa, a infinita mediocridade dos caminhos estreitos e sem brilho que Salazar outorgava a um país, triste e sem grandeza.

Chamou-se Aristides de Sousa Mendes. O livro em cima, dá-nos uma ideia do valor da solidariedade e do papel da consciência do consul de Bordéus. Num País  em que é significativo a falta de figuras e instituições capazes de honrar a memória do País, ele é também para nós alguém que superou a memória do Holocausto. A história construída apenas para existir, sem grandeza é uma das limitações do presente e é com figuras inspiradoras que podemos voltar a ousar sobre a injustiça. É esse o grande exemplo de Aristides de Sousa Mendes.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Lembrança de Cecília Meireles


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles, «Canção», in Da Viagem (1939)
Imagem, in folhademinasgerais.blogspot.com