domingo, 3 de abril de 2016

O livro e o leitor

"Entre as frases -, no intervalo que as separa permanece ainda hoje como num hipogeu inviolado, enchendo os intrerstícios, um silêncio muitas vezes secular." (1)

A História das Instituições e a evolução social estão marcados por um objecto que lê o que nos rodeia e que é por isso uma ferramenta de análise e de assimilação de valores culturais. A importância do livro nas sociedades históricas releva da construção da memória, da afirmação e coesão do contexto social, mas também das suas marcas nos espaços privados, na construção do gosto individual. 
Exemplos da tentação de domesticar as ideias, pela posse de livros censurados, a sua destruição como objecto desorganizador do quotidiano não faltam. Eles revelam a importância da memória nas sociedades humanas.

O livro empresta aos seus utilizadores uma desafiadora noção de individualidade, capaz de fazer criar a dúvida, a inquietação e é por isso que alguns no extremo acreditaram que queimar o livro, é destruir as palavras e a as ideias que nele vivem. Acreditaram infantilmente que o passado podia ser mais que apagado, reescrito. O livro tem pois um valor significativo, mas também simbólico. Ele empresta ao quotidiano aspectos organizativos, concedeu valoração a muitas representações culturais e certificou ideias emergentes e causas. 
O livro revela-se como objecto e ferramenta de um quotidiano, onde o leitor constrói a escrita do livro.

António Lobo Antunes costuma dizer que depois de escrito, o livro é do leitor. As diversas leituras dão ao livro significados diferentes no tempo e no espaço. Leituras do próprio autor, em função de contextos diferenciados, onde a leitura pública ofereceu respostas à formação de leitores e às dúvidas do autor. Compreender o acto criativo pelas palavras é ainda hoje um mistério e o verdadeiro desafio para comparar o diálogo entre a voz do escritor e a a voz do texto. 
Leitura e assimilação que foi feita de modo diverso e que as portas da leitura realizaram ao alimentarem mundos particulares.

Que dimensão têm as nossas memórias? Participamos delas, ou elas são episódios que nos chegam por outros e assim nós somos construção da sua memória. Uma História que relacione as mentalidades e os quadros mentais com a vida vivida e a oferecida pelos livros é algo que está ainda timidamente feito. 
A análise dos personagens dos livros reflecte esta distinção na sociedade e é um dos aspectos simbólicos do livro. O seu leitor.
Ele é também o criador de uma conversação consigo próprio, mas também com o mundo. A memória conserva a dimensão de construção humana no espaço e no tempo, permite ensaiar novas formas de reconstruir a humanidade e o seu património. 
As memórias da leitura são em parte o testemunho dos momentos que por elas vivemos no real.

(1) - (Marcel Proust, O Prazer da Leitura)
Imagem: Copyright - "Dans la Bibliothèque" (1872) - Auguste Toulmouche (século XIX)

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